Pintora confessa que se tivesse ficado nos Açores “provavelmente não seria artista”

“Sei de pessoas que andam à deriva na Ribeira Grande” à procura da Casa Lena Gal

 Nasceu nos Fenais da Ajuda e foi durante os sete anos que lá viveu que absorveu experiências que mais tarde a marcariam e que inconscientemente transporta para a pintura. A arte de Lena Gal – ou Helena Galvão - está intrinsecamente ligada à figura feminina mas também à terra. As memórias de ver “as mulheres de xaile na cabeça, e sobretudo uma mulher que se chamava Amélinha, que andava sempre com um xaile na cabeça mas não se via o rosto, só os olhos” estão até hoje retratadas nas suas “Mulher poema”, como lhes chama. Mas havia também as bordadeiras que se sentavam nas soleiras das portas e que a menina de então também acompanhava: “sentava-me ao pé delas e ouvia as histórias que contavam entre si. As suas cumplicidades, como dizia Saramago”.
Lena Gal também recorda que era “uma criança livre, corria a aldeia sem receios, brincava muito na rua até o sol se pôr” e acompanhava o pai, camponês, nas terras. “Gostava imenso de estar na terra. Ver o meu pai a plantar as coisas e ajudava-o. Para mim era tremendo, estar a ajudar a colocar uma semente e dali sair depois o alimento. Marcou-me. E por isso sou muito ligada à terra, às questões ecológicas e do ambiente”, conta, enquanto recorda que era também nessa altura que pegava em canas e se punha a desenhar no chão. “Acho que marcou o que eu hoje sou e as questões das artes e ambientais”, refere. Também se recorda das festa dos Fenais da Ajuda e do “aparato” numa época em que não havia electricidade e o entretenimento era pouco, havendo a entreajuda dos vizinhos para enfeitar o caminho “e isso também me deixa em memória porque acho muito bonito”.
Mas entretanto, muda-se dos Fenais da Ajuda para Ponta Delgada onde viveu até aos 20 anos até seguir para Lisboa. “É o período que menos gosto”. Habituada a ser “livre a poder correr e a brincar sem condicionamentos de carros, em Ponta Delgada tudo se alterou e não foi fácil”. Fácil também não foi a fase da adolescência, em que considera ter sido uma adolescente “rebelde”, não no sentido literal da palavra mas “o que hoje é aceitável um jovem fazer, há 40 anos não era e nem mesmo se podia entrar num café”.
A mudança para Lisboa também não foi fácil, confessa, até porque “os dizeres açorianos condicionavam um pouco. As pessoas não percebiam bem o que eu dizia. Entrar num café e pedir uma Kima, e as pessoas ficavam sem saber o que eu queria”. Mas sentiu-se “bem aceite” e em Lisboa encontrou “o que queria, que era a liberdade para fazer as coisas, sem ninguém estar a criticar e a julgar e a falar. Ninguém se preocupava se eu ia a um café, ninguém criticava”, recorda.

Viver da pintura

Em Lisboa começou a frequentar exposições, galerias, museus. Frequentou a Sociedade Nacional de Belas Artes, depois a ARCO, e mantendo-se a pintar os rostos da sua infância, dedica-se à arte artesanal. “Fiz restauros, fiz peças artísticas na linha artesanal. Eram recursos que davam alguma sobrevivência porque era mais fácil vender-se uma peça artesanal do que vender uma tela. Pelo menos inicialmente. Fiz trabalhos em couro lavrado. Fazia artesanato numa linha mais artística. Vendia para lojas, casa de decoração”, conta.
Foi então que aos 30 anos “pensei em começar a dedicar-me à pintura. Achei que era a minha vida, só pintar. Pintar e ter outra profissão não sei se ia conseguir ser boa nas duas coisas, nem pintar bem, nem trabalhar bem. Não queria a pintura como um hóbi. Queria dedicar-me como se fosse uma profissão. Entretanto conheci o meu marido e as coisas puderam caminhar nesse sentido, porque não é fácil viver da arte, pelo menos quando se inicia”.
E nem agora é fácil, conta. Mas admite que “não era difícil se os portugueses tivessem uma certa sensibilidade para a pintura e percebessem a importância que é ter arte na parede. Julgo que esta cultura ainda não se tem. Primeiro, porque se julga sempre que não se tem dinheiro para a comprar. E depois porque se arranjem alternativas, como o fine art print mas mesmo assim olham de lado porque dizem que é uma fotocópia qualquer”.
Mas Lena Gal reconhece que já há quem “vá comprando mais lá fora. É um bocado difícil porque não temos a cultura de adquirir arte. Já há muito jovens que compram, há quem goste mas têm as casas cheias e não lhes é mais possível comprar, mas sempre se vai vendendo”, admite.
Se fosse para começar agora uma carreira na pintura, para viver só da pintura “não seria fácil, porque estamos a passar por uma época diferente e complicada”. Por isso resolveu alargar o leque de opções e tem actualmente uma linha de cursos Zen online. “Não é para criar artistas mas são cursos dados ao nível terapêutico que as pessoas aprendem a desenhar e realizar trabalhos decorativos em círculos, mandalas”. Os cursos já existiam de forma presencial mas agora, com a pandemia, foi preciso passar para o online, e embora “não dá para ficar rico, porque não é esse o meu objectivo, mas sim ir vivendo do que mais gosto: que é a arte”. A aceitação tem sido boa e apesar deste curso que está a decorrer agora terminar já em Fevereiro “este grupo que tenho agora quer continuar a vivenciar semanalmente uma aula. Dentro do mesmo contexto mas de forma mais livre”, refere.
Vivências que vai acumulando juntamente com as várias exposições, colectivas e individuais, em Portugal, no estrangeiro e que tem trazido também aos Açores. Mas será que se continuasse em São Miguel a carreira artística teria sido igual?
“Não. Nem pensar. Provavelmente não seria artista. Coloco estas perguntas a mim própria porque era muito rebelde, quer dizer não era rebelde, gostar de sair, entrar num café, era visto como rebeldia porque não se podia fazer nada disso. Por isso, nem pensar que seria artista nos Açores. De todo”, revela.

Casa Lena Gal

Mas vai mantendo a sua obra ligada ao concelho que a viu nascer. A  Casa Lena Gal, espaço de exposição permanente da responsabilidade da Câmara Municipal da Ribeira Grande, permite-lhe isso. O espaço foi inaugurado em 2012 junto ao Museu da Emigração e é lá que há uma mostra da sua obra, onde a mulher assume o papel principal. “A temática será sempre a mesma porque para mim, quando digo que pinto as mulheres, pinto as mulheres que somos todas nós. Pinto-a a si, a sua mãe, a senhora do comboio, a minha avó, a minha irmã. Pinto as mulheres que fazem parte da nossa vida. Aquela que caminha ao nosso lado. Digo que os meus quadros são as mulheres poemas, como não tenho muito jeito para a poesia, julgo que é nos meus quadros que transmito a essência da poesia”, refere.
A artista começou por pintar várias temáticas, além das mulheres: “os pescadores, os homens do campo, talvez pelas memórias do meu pai. Embora sempre tivesse mulheres presentes. Depois comecei a pintar só a figura feminina”, explica.
Além das mulheres, são também as cores de São Miguel que transpõe para a tela. Mas não o verde que transborda na paisagem micaelense. “Não preciso de pintar os verdes para que nas minhas telas esteja uma parte dos Açores, que vai estar sempre. Se olharmos atentamente, nas cores da ilha predominam os verdes. Mas se olharmos com mais atenção, os ocres, as cores da terra, estão lá. Para ao lado das Furnas há cores que eu tenho nas minhas telas. Digo a brincar que eu pinto o interior da ilha, porque as minhas cores são do interior da terra, do interior da ilha. Talvez seja porque ia para a terra com o meu pai, e via na terra os pastéis, os ocres, várias tonalidades. Tenho essas cores da ilha, mas nesse contexto. Dos laranjas, vermelhos do pôr do sol maravilhosos que temos. Isso são as cores que utilizo nas minhas telas”, refere.
E têm sido muitos os que se têm deslocado à Casa Lena Gal para apreciar o seu trabalho e a sua temática da mulher, principalmente as escolas. “O feedback que tenho com visitantes são mais do continente, pessoas que vão de passagem, vêem a indicação, param e entram. Depois contactam-me a dizer que visitaram. Outras já vão com esse conhecimento. Sei que há pessoas que vão em trabalho a São Miguel e fazem de tudo, para ir à Casa Lena Gal”, refere. Já feedback dos seus conterrâneos não tem tido. “Não sei se visitam, se não visitam. Não sei. Não tenho esse feedback”, refere.
Mas Lena Gal acredita que o espaço deveria estar mais divulgado. E dá como exemplo que “se formos ao site da Câmara da Ribeira Grande não há indicação nenhuma sobre a Casa. Estão todos os museus, iniciativas de carácter cultural mas a Casa Lena Gal não está. Já mencionei à Câmara Municipal mas não está divulgada. Sei que há muitas pessoas que consultam o site à procura de morada e de horários para poderem visitar e esse feedback tenho tido, de pessoas que não encontram informações e depois andam à deriva na Ribeira Grande”, lamenta.

Evolução dos Açores

Apesar de ter deixado cedo a sua terra natal, Lena Gal mantém a ilha junto de si. E vai acompanhando conforme pode os Açores à distância. “Não vivo nos Açores, sei aquilo que leio. Uma coisa que sei é que não tem nada a ver com o tempo que vivia aí. Daí para cá os Açores evoluíram muito. Até mesmo a Ribeira Grande. Quando lá vivia ainda era Vila, era parada, mas começou a evoluir algum tempo depois”. A Ribeira Grande surge à cabeça quando é para exemplificar até a evolução cultural. “Ainda há uns tempos disseram-me, alguém que a visitou, que a Ribeira Grande tem muitos museus e eventos culturais para uma cidade pequena. Nunca me tinha passado isso pela cabeça, mas as pessoas que vão aí dizem-me isso. Acho que São Miguel evoluiu muito. Considero Ponta Delgada uma Lisboa pequena. É o que vou vendo”, confessa.
Mesmo a nível cultural, na altura “era o Museu Carlos Machado que havia. As pessoas também vão tendo mais conhecimento dessas áreas culturais e culturalmente está muito melhor. Embora acho que podia ser mais ao nível artístico. Sei que existem muitos bons pintores, muitos a viver no continente e a vida deles é feita aqui. Acredito que quem é só artista na ilha não me parece que seja fácil. Como artista não sei como seria viver na ilha”, comenta.
E remata que apesar de guardar da infância as melhores recordações, regressar a São Miguel não está nos seus planos. “Não esqueço nunca a ilha, mas voltar nem pensar. Gosto de ir à ilha, fazer exposições, de estar, mas viver de novo na ilha não. Nem mesmo com toda a evolução que a ilha tem”, conclui.                                       

                                                  

Carla Dias

Print
Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima