3 de janeiro de 2021

Opinião - Ponto crítico

A ameaça e depois de 2020

Elaborar o balanço do ano que todos despedimos sem cortejo nem saudade escapa a qualquer rotina económica, social ou política antes acreditada, mesmo por quantos durante ele completaram um século, viveram duas grandes guerras e meia centena de anos sob ameaça dum arrasador conflito nuclear entre nações.
O microscópico inimigo e invisível viaja instantaneamente de corpo para corpo humano com único propósito de os corromper até à morte e beneficia do que o ser humano mais precisa: o contato pessoal e a proximidade social. Por enquanto, só se conhece uma defesa segura, o distanciamento social e o confinamento individual. O antídoto parece já ter sido descoberto em diversos laboratórios. Tem de ser aplicado rápida, progressiva e massivamente. Constitui uma fundada esperança quando à defesa da vida, insuficiente, todavia, para a retoma da normalidade social e económica alteradas. Ainda é muito cedo para declarar o fim da pandemia. Este verdadeiramente só acontecerá quando forem levantadas as restrições à mobilidade e ao contacto social; as pessoas deixarem de sentir a ameaça do vírus e recuperarem a confiança perdida, por si próprias, na ciência e na economia com o significado de emprego e rendimento dignos.
O vírus é vencido pela vacina. Mas como recuperar a confiança, a economia e o equilíbrio social tão difíceis de garantir e gravemente feridos pelos efeitos do confinamento e do entorpecimento económico gerado pela baixa do consumo e da retração do investimento?
O que aconteceu neste tempo de ameaça e de medo que ainda se prolonga? Por todo o Mundo, os Estados injetaram rios de liquidez financeira nas economias, impuseram aos credores financeiros a concessão de moratórias longas, apoiaram a suspensão temporária da prestação de trabalho para conter o desemprego, mobilizaram os serviços de saúde para a prioridade das prioridades, a defesa da vida ameaçada; fecharam as fronteiras nacionais, condicionaram a mobilidade, os festejos e diversões públicas, obrigaram o povo a um confinamento geral transformando os lares em verdadeiras trincheiras para uma guerra contra um inimigo invisível e letal, com poder de destruição massiva e o dom da ubiquidade. Haverá pior inimigo da vida do que este?
Quais são as consequências para além das vidas ceifadas e do empobrecimento? Uma maior consciência da fragilidade do homem em relação à natureza em geral e em especial aos micróbios e às alterações climáticas. A perceção mais assumida de que os Estados, a sua autoridade e cooperação internacional (pode ler-se poder político forte) são necessários e sem eles o caos sanitário e humano ter-se-iam instalado sem remédio. O reconhecimento generalizado do valor cimeiro da ciência e da tecnologia na resolução dos grandes problemas. O neoliberalismo protagonizado por Reagan e Thatcher há 4 décadas baseado no poder dos mercados, no valioso desafio da globalização e na máxima liberalização pode estar próximo da sua desglorificação. 
O Mundo irá necessitar dum apropriado sistema de ajudas ao desemprego, integrado de apoios financeiros às empresas que permita retomar a produção e o investimento. Como dum sistema de saúde mais acessível e mais robusto. A este propósito talvez urja debater a elaboração de uma carta dos direitos da humanidade que considere a defesa do ambiente, da saúde, do conhecimento e da igualdade como valores universais e supranacionais. A solidariedade internacional é fundamental para a recuperação da vida social e económica perturbadas.
A pandemia teve um efeito retardador em vários domínios como se sabe e se sente, mas também um impacto propulsor noutros mormente na digitalização: teletrabalho e comércio eletrónico. Trata-se duma realidade cuja tendência é expansiva e não volta para trás. As empresas têm de se preparar para a nova oportunidade. A pandemia gerou um novo impulso na economia digital que a ampliará muito e substituirá com significado o modo de proceder atual em todos os domínios.
A pandemia teve consequências semelhantes em todo o Mundo revelando a verdade, a igualdade, exigindo das Nações um comportamento simétrico conseguido. A simetria assinalada no combate será replicada na fase da recuperação económico-social anunciada? Que outra normalidade se seguirá? É a questão? E… não tem “e”, só depende do homem que evolui desde o homo habilis.AD

 

Álvaro Dâmaso

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima