Actriz açoriana que arriscou futuro em Los Angeles aguarda grande oportunidade para brilhar

Se para muitos trabalhar no mundo do teatro e do cinema não passa de um sonho por concretizar, para Helena Ávila esta atracção pelos palcos e pelas câmaras tornou-se uma certeza desde tenra idade, tendo inclusive maturado a ideia de sair dos Açores – mais concretamente de São Roque do Pico – para evoluir na carreira que escolheu.
O primeiro contacto propriamente dito com o mundo do teatro surgiu quando, aos 13 anos de idade, começou a frequentar o clube de teatro da Escola Básica Integrada de São Roque do Pico, graças a um professor que – ao ser novo na escola – trouxe esta novidade para a comunidade escolar.
Assim, da sua primeira peça de teatro, uma experiência que classifica de “muito interessante” e que levou o pai às lágrimas, restou “a certeza de que era este o percurso que queria” fazer da sua vida, trabalhando a partir daí para o concretizar, permanecendo no clube de teatro depois do seu fundador se ausentar da escola.
Apesar de vir de uma família onde a música tem muita importância, e na qual muitas das tardes das férias de Verão eram passadas a produzir ou a ensaiar, em conjunto com os primos, as peças de teatro para apresentar aos adultos, Helena Ávila, hoje com 33 anos de idade, foi a primeira a querer seguir esta área profissionalmente.
Assim que transmitiu esta ideia à família, ainda antes de entrar para o secundário, mas depois de alguma resistência, a então adolescente conseguiu convencer os pais a deixarem-na fazer os testes de admissão para uma escola profissional de teatro no Porto, testes estes que acabaria por não fazer devido ao receio de viver numa cidade nova.
“Os meus pais alertaram-me para as suas preocupações de um futuro incerto e instável a nível profissional, eles sempre me apoiaram (…), mas devo ter comentado com a minha irmã que estava com medo de ir para o Porto aos 14 anos. A minha irmã comentou com o meu pai e ele disse-me que se estava com medo e sem certezas que não ia.
Nessa altura faltou-me a confiança para dizer que queria mesmo ir, e fiquei em casa. Nem fiz as provas de selecção e durante o secundário fiquei sempre arrependida de não ter ido estudar para a escola profissional. Isso só aumentou a minha certeza de que era mesmo aquilo que eu queria porque sentia a necessidade de continuar aquela formação”, relembra a actriz que em 2015 foi viver para os Estados Unidos da América.
A partir daí tomou então a decisão de se envolver em projectos relacionados com teatro na ilha, o que a obrigava a fazer vários quilómetros todos os dias para chegar às Lajes do Pico, esforço este que – por ser feito por gosto – permitiu que os seus pais “ganhassem mais confiança” em deixar a filha seguir os seus sonhos, “porque viram que para além dos sacrifícios que eram necessários na ilha para continuar a beber o máximo que conseguia dessa arte eu não desisti”, relembra.
Aos 17 anos inscreveu-se na Escola Superior de Educação de Coimbra, onde se licenciou em Teatro e Educação – uma área pela qual também nutre interesse – mas o seu verdadeiro objectivo era candidatar-se ao Conservatório de Lisboa, chegando até à última das provas de selecção sem conseguir, no entanto, entrar. Mesmo com este desfecho, Helena Ávila afirma que esta foi uma experiência “muito interessante” e que “valeu a pena”.
Apesar de os anos antecedentes à sua ida para o continente terem sido de alguma forma “sofridos” por sentir que estava a fazer “exactamente as mesmas coisas que fez durante toda a vida”, ao ter entrado para a universidade percebeu o valor que todo o percurso feito nos Açores teria realmente na sua vida, considerando que “as vivências da ilha contribuíram imenso” para a construção da sua personalidade.
Terminada a licenciatura, Helena Ávila passou os primeiros dez anos da sua carreira no teatro, tendo também feito algumas participações na área da televisão, experiência esta que lhe mostrou em primeira mão a instabilidade que é muitas vezes conhecida nesta profissão.
“Acabei a licenciatura mas trabalhei muito em Portugal, e como o trabalho de actriz não era nada estável eu andava em saltimbanco. Onde havia trabalho era onde eu estava e à custa disso morei em Figueira, morei em Serpa, morei em Viana do Castelo e em Lisboa, e mesmo quando estava em cidades diferentes havia certas companhias em que fazíamos muita digressão”, recorda.
Depois desses anos, permanecia ainda o bichinho de fazer algo que até então não tinha feito antes na sua vida profissional, o cinema, sendo esta uma oportunidade que pensaria que surgiria naturalmente no seu percurso, à medida que aumentava a sua experiência e profissionalismo, sendo este um factor decisivo para arriscar um futuro profissional em Los Angeles.
Contudo, ao contrário da impulsividade que é tão característica da adolescência, desta vez a transição foi feita com maior cautela, conforme conta a actriz açoriana: “Quando decido ir para Los Angeles, primeiro fiz umas férias prolongadas em San Diego, onde tinha família e era relativamente perto de Los Angeles, um bocadinho para apalpar terreno. Isto em 2012. Mas como ia em contexto de férias mas a tentar perceber como se vivia fiquei um bocadinho apreensiva.
Então voltei a Portugal e amadureci a ideia e só em 2015 é que me inscrevo mesmo na New York Film Academy, em Los Angeles. Falei com os familiares que estavam lá mais próximos para ver se estavam abertos a darem-me algum apoio nos primeiros tempos, por isso fiquei a morar em casa de um tio meu”, o que acabou por tornar as “dificuldades mais aconchegadas” devido ao ambiente familiar de que beneficiava ali.
Para Helena Ávila esta foi uma tomada de decisão que a aproximou dos processos de gravação com meses de duração – algo que tinha curiosidade em conhecer mais de perto –, tendo chegado à conclusão de que seria necessário arriscar, independentemente do resultado final da sua escolha.
Porém, apesar do conforto de ter a família por perto, nem tudo foi fácil na sua adaptação a Los Angeles, sobretudo em algumas das suas rotinas do dia-a-dia: “Quando me mudo para Los Angeles tinha 29 anos mas ao nível da minha capacidade para me desenrascar no dia-a-dia parecia que tinha 17 anos outra vez. Não sabia como funcionavam os bancos ou como assinar um cheque porque era uma coisa nova para mim, sentia-me outra vez uma pequenina a pedir instruções de coisas que em Portugal eu já fazia completamente sozinha”, recorda.
Quanto ao primeiro trabalho que fez em Los Angeles, recorda o facto de ter sido uma curta-metragem realizada por um colega e realizador mexicano que se encontrava a finalizar a sua tese de mestrado na New York Film Academy, trabalho esse que embora não tenha sido remunerado, foi apresentado num festival de cinema independente com direito a uma apresentação no TCL Chinese Theatre, na Hollywood Boulevard, o que permitiu sentir “aquele frenesim de uma apresentação em Hollywood num teatro tão conceituado”.
O primeiro ano em Los Angeles, sobretudo, foi principalmente dedicado a projectos escolares, entrando em várias curtas-metragens e em peças de teatro. Ao fim desse ano, a actriz começou por fazer aulas de interpretação, e antes de chegar a pandemia encontrava-se a ensaiar para as gravações de um episódio piloto para uma série de televisão que “infelizmente não foi para a frente”
“Estava muito curiosa em relação ao episódio piloto que estávamos a começar a ensaiar antes da pandemia acontecer. Íamos gravar dentro de duas semanas e tudo foi cancelado, não sei se irá voltar mas com esta série televisiva acredito que ia dar um salto diferente daquilo que atingi até agora”, adianta Helena Ávila.
Apesar de tudo, mesmo tendo regressado a Lisboa durante esta fase pandémica, destaca que ao nível das publicidades conseguiu fazer alguns trabalhos, “o que deixa uma esperança e um alento de continuar a trabalhar e que não está tudo perdido”, embora ao nível da ficção ainda não sinta que tenha tido a sua oportunidade de brilhar no pequeno ecrã.
Por outro lado ficam as memórias dos anos “riquíssimos” passados a fazer teatro, contracenando com actores como Fernando Gomes, André Gago, António Fonseca, com quem afirma ter aprendido imenso, relembrando ainda as comédias no Teatro do Noroeste, em Viana do Castelo, todas encenadas por Fernando Gomes, que “eram muito populares e quase todas as sessões esgotavam, era muito divertido”.
Mais recentemente, a actriz açoriana entrou no videoclipe gravado por Madonna em Lisboa com o cantor, actor e compositor colombiano, Maluma, afirmando que “é sempre empolgante estar num ambiente de grande produção”.

        Joana Medeiros
 

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Autor: CA

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