18 de outubro de 2020

Crónica da Madeira

O mundo maravilhoso criado por Filipe La Féria num espetáculo televisivo de homenagem a Amália

Filipe La Féria, é um criativo
Com uma sensibilidade muito especial,
aliada a uma cultura que o dignifica 
e uma experiência rica, 
vivida sob a dedicação de um estudo 
sempre atualizado, na arte do teatro 
– vive e morre pelo teatro

A sua imaginação ultrapassa a fronteira do país.
Vimo-lo em Paris, numa sala,
com oito mil espetadores ser freneticamente 
aplaudido na apresentação do seu musical – Amália.
Com as lágrimas nos olhos 
o vasto público, abraçou-o,
num gesto de admiração e gratidão.


Ainda hoje experimento a sensação de ouvir o bater ritmado dos pés, como se fosse uma canção de agradecimento, do vasto público que enchia literalmente – oito mil pessoas – a enorme sala de espetáculos em Paris. Um público que gritava: “plus, plus, plus.” Aí apercebi-me da dimensão de Filipe La Féria, como encenador, como criador, com o seu poder imaginativo rompeu as fronteiras do país e internacionalizou o seu musical – Amália. Aí, de novo, apercebi-me, que perante um público tão exigente ele tinha conseguido passar a sua mensagem. Depois de Paris foram a Suíça e o Luxemburgo onde as mesmas cenas se repetiram. Tive a sorte de estar em Paris, nessa ocasião. Fui ao primeiro espetáculo, senti o arrepio do público emocionado. Fiquei orgulhoso como português por tão estrondoso sucesso. Orgulhoso porque o meu compatriota era reconhecido e exaltado lá fora. Na realidade o poder criativo, a imaginação, a fantasia e o gosto de Filipe La Féria, não têm limites. Primeiro revelou-se um excelente ator, reconhecido como tal a Fundação Gulbenkian dá-lhe uma bolsa de estudo, parte para Londres – onde vive o mundo do teatro – frequentou as melhores escolas de teatro – depois demonstrou a sua capacidade extraordinária como encenador e produtor. Ele proporciona ao país espetáculos de alta qualidade, onde todos os pormenores são convenientemente tratados. Foi pena que o seu projeto para a fundação de uma escola de teatro não se realizasse. Era um projeto demasiadamente arrojado e inovador que não encontrou apoio do Ministério da Cultura. Num país de “opereta pobre” não é fácil criar iniciativas que tenham reflexos sobre a juventude. É tudo tão complicado. É tudo tão burocrático. Contudo La Féria faz dos seus espetáculos escolas educativas, sobretudo dá oportunidade para que surjam novos atores. Descobre-os. Prepara-os. Lança-os. Aos atores já profissionalizados exalta-os. Dignifica-os, dando-lhes oportunidades para brilharem. É um homem de sonhos e projetos. É uma personalidade que vive para o teatro. Conhece, como poucos, de que enferma esta parte da cultura do nosso país e quanto essa seja tão necessária para o público português. Quando nos ensaios ele se irrita é porque sabe que os atores podem dar muito mais de si próprios. São gritos de um acreditar na capacidade dos demais, daqueles que, com ele, fazem o espetáculo.
O seu espetáculo televisivo, do canal 1 da RTP que assinalou o encerramento das comemorações do centenário do nascimento de Amália, a deusa que levou Portugal ao mundo, com a voz única, apenas com um viola e um guitarrista, conquistando-o, tornando num país marginalizado e criticado pela sua ditadura. Um país mais querido e mais admirado pelas suas gentes. 
Porque ela era o povo e a sua voz mágica levava o canto do seu povo. O espetáculo de La Féria do passado dia 06 do corrente mês, em tempos de Covid-19, fez-nos sonhar e perder, por umas horas, todos os receios que tanto nos atormenta. Por outro lado, foi o testemunho inequívoco das suas capacidades como grande encenador que é. Um espetáculo inteligentemente montado, em que Amália foi recordada, nos vários momentos da sua vida de artista. Um espetáculo cheio de beleza e de magia, com um elenco cuidado de artistas, cujas vozes maravilhosas arrepiavam, atirando-nos para aquela voz que soube cantar, como ninguém, os grandes poetas portugueses. Um conjunto de luzes que muito enriqueceram o espetáculo. Um guarda-roupa de luxo, de uma beleza impressionante executados para os corpos das cantoras e cantores. Vestidos de modelos originais, elegantíssimos fazendo sobressair ainda mais as figuras de Alexandra, Ana Bela, Vanessa, Cidália Moreira, Filipa Cardoso, Beatriz Felício. Todo o guarda-roupa combinava com uma série riquíssima de bijuteria. Algumas faziam-nos lembrar os brincos que Amália usava nos seus espetáculos. O atelier da famosa estilista do norte do país, Micaela Oliveira, esmerou-se e não desmereceu a reputação que disfruta do requintado gosto e da alta qualidade. Antes, pelo contrário, o seu nome enalteceu-se e mereceu certamente admiração de milhares de telespetadores. Figurinos da sua autoria e de Filipe La Féria.
O naipe de vozes masculinas merece uma referência, pela excelência das interpretações e magnificência das vozes melódicas e quentes, a do conhecido ator Carlos Quintas e a dos cantores FF – fantástico no interpretar e na sua simplicidade e a de Gonçalo Salgueiro, uma voz rica e bem timbrada, sendo um homem tão bonito, não necessitava de gesticular tanto...
As cenas em casa da Amália deram bem o ambiente que naquela noite viveram os convidados. Uma noite para recordar porque é irrepetível com Amália como anfitriã e convidados especiais Vinícius de Morais, os poetas Natália Correia e David Mourão Ferreira, Ari dos Santos, Alain Uman, Maluda, Casimira, respetivamente interpretados pela Alexandra, para além da voz maravilhosa que possui, tem inúmeras qualidades nas interpretações que lhe são distribuídas – La Féria sempre acreditou nela – Marco Gois, Paula Fonseca, Nuno Guerreiro, João Frizza, Tiago Diogo, Cláudia Soares e Rosa Areia. A interpretação de Vitor de Sousa na personagem de Linhares Barbosa, ótima. A passagem do ambiente caloroso da casa da Amália para o palco dava-se tão rapidamente e sem falhas, deslumbrando pelas vozes e efeito de luzes.
O telespectador não se apercebeu de quantas pessoas se envolveram na realização deste espetáculo. 71 elementos sob a sábia batuta de La Féria deram corpo e alma ao espetáculo. A direção da orquestra esteve a cargo do conhecido pianista Mário Rui Teixeira. Esta era constituída por oito elementos. Com seis elementos a Produção era encabeçada pela minha querida amiga Irene Sousa. Tinha como Produtora Executiva a não menos querida amiga Maria Ruivo. Como diretor de Produção o experiente e competente profissional Carlos Gonçalves. O naipe de bailarinos que emolduravam os diferentes números era constituídapor oito elementos e a coreografia de Marco Marcier esteve à altura.
Felicito Filipe La Féria por mais este excelente espetáculo. Com ele, sem dúvida, estamos perante a sedução pelo belo, pelo imaginativo. Seduzindo-nos leva-nos para um rio, onde nas margens se ganha a certeza pelo gosto e pela magia. Os seus espetáculos são gosto e magia, varados na mesma praia poética. 

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Categorias: Opinião

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