Rúben Rodrigues, Director-geral da empresa em entrevista exclusiva

Futurismo facturou três milhões de euros em 2019 e já perdeu mais de um milhão de euros este ano

 Correio dos Açores - Quem é o Rúben Rodrigues na Futurismo?
Sou o sócio principal e sou o Director-geral da empresa. Digamos que eu marco a orientação da empresa, coadjuvado por um director comercial e por um director operacional. Somos os três que estamos a frente da empresa. Depois temos também uma segunda linha de colaboradores que trabalha directamente connosco. No nosso funcionamento organizacional temos a participação constante dos coordenadores na discussão das decisões da empresa.

O que tem significado esta pandemia para a empresa Futurismo? 
Esta pandemia começou por ser uma grande surpresa que se traduziu numa crise com efeitos para nós imprevisíveis. Havíamos passado a crise de 2008 até 2012, sem o mínimo de problemas, sempre com resultados positivos, uns melhores do que outros em anos consecutivos. De resto, este foi o período em que a empresa investiu de forma significativa.

Investiu de forma significativa até pelo sucesso que vinha alcançando junto dos seus clientes?
Sim, derivou de uma tendência que vinha desde o inicio mas que se foi acentuando justamente naquele período de crise 2008-2012, altura em que decidimos fazer grandes investimentos, com resultados, por vezes, muito interessantes e significativos nos anos consequentes. O ano de 2019, por exemplo, foi o nosso melhor ano de todos. E os primeiros dois meses a dois meses e meio deste ano estavam a superar o período homólogo do ano passado. Tudo levava a crer que estaríamos em 2020 num ano melhor do que o anterior. Mas, aconteceu a pandemia e, pela primeira vez, sentimos um efeito de completa impotência e de completa incapacidade para reagir e fazer seja o que for para contrariar esta situação e este estado de coisas. 
Pura e simplesmente não há clientes, não há turistas e a empresa está desde, rigorosamente, o dia 15 de Março, (que foi quando sentimos que não existiam as condições para continuar), sem receber nada. E isto é muito complicado. Não temos condições para nos mantermos se tudo isto continuar assim porque a Futurismo, sendo uma média empresa, tem já uma estrutura significativa: temos 50 funcionários a tempo inteiro de Verão e de Inverno. São funcionários que estão connosco há vários anos e, portanto, há muitas famílias que dependem da actividade que a empresa tem.
O sistema que nos tínhamos funcionava muito bem, tínhamos crescimentos consecutivos acima de 40 e tal%, com o pressuposto de que a empresa estava em pleno funcionamento. Quando se corta a possibilidade da empresa ter esta velocidade e o ritmo que tinha, fica tudo complicado, comprometido e, pronto, estamos assim…

Foram trabalhadores para lay-off?
Fomos para lay-off. Inicialmente, todos os funcionários foram para lay-off e, neste momento, temos alguns em lay-off total e alguns em lay-off parcial para nos permitir dar resposta a alguma procura que possa existir agora.
Durante o mês de Junho não houve nada. Agora, estamos a contar que, em principio, a partir da segunda quinzena de Julho e sobretudo em Agosto e Setembro possa existir alguma actividade na sequência de reservas que temos, mesmo de turistas do estrangeiro, que mantém o seu interesse nos Açores e acreditam que será possível vir aos Açores nesta altura. 

Disse que 2019 foi o melhor ano da Futurismo, estamos a falar de um crescimento em relação a 2018 de quanto?  
Estamos a falar de um crescimento de 18% o ano passado em relação a 2018 mas, por exemplo, em 2017 tínhamos tido um crescimento de 40 e tal% e em 2016 também. Temos andado sempre numa média de 20 e tal a rondar os 30% de crescimento. Tivemos três anos em que crescemos 40 e tal por cento por ano. Estes são números muito interessantes. Não há crescimentos tão significativos como aqueles que tivemos. Mas, as coisas são como são. Além destes crescimentos se deverem á conjuntura,  estou convencido que resultaram também da estratégia que adoptamos que foi justamente investir em tempo de crise.

A Futurismo começou com um barco de observação de baleias?
Nós começamos, em 1990, com um barco à vela para fazer charters inter-ilhas. Mas fomos a primeira empresa a dar esse passo em Portugal e não havia legislação que pudesse dar cobertura à actividade. Não se podia alugar o barco sem tripulação e, além disso, nos Açores não havia condições. A única marina que existia era a da Horta e começamos a sentir muitas dificuldades em manter essa actividade. É verdade que, de Verão, conseguíamos alugar o barco mas também é verdade que a actividade, em si, somando todas as despesas. não era interessante. E, em 1994, decidimos fazer uma deriva do foco inicial da empresa para a observação de baleias e golfinhos em São Miguel. 
Depois, continuamos com esta actividade e adaptamo-nos. Fomos adquirindo embarcações mais apropriadas e fomos derivando a actividade. Hoje em dia não fazemos só observação de baleias e golfinhos, temos uma panóplia grande de ofertas e também somos, hoje em dia, uma agência de viagens de importação de turistas, digamos assim, para os Açores

Panóplia de oferta tais como trilhos, por exemplo?  
As outras actividades são passeios terrestres, são jeeptours, tours em carrinhas, bicicletas, kayaques nas Sete Cidades, standard up padel e tours por várias ilhas. Temos natação com golfinhos, passeios junto à costa, tudo isso. E temos pacotes de várias actividades.
  
Quando tudo isso pára como é que o gestor se sente?
Sente-se altamente frustrado por sentir que as opções que havíamos feito estavam correctas, estavam certas. A nossa estratégia estava certa e face a esta impossibilidade que nos afecta a todos e, sobretudo, as empresas ligadas ao turismo, aquilo que sinto, pessoalmente, é uma grande frustração pôr não poder satisfazer os objectivos da empresa. E mais do que frustração, este é um problema grande que me afecta que é sentir o peso de 50 pessoas que estão afectadas nos seus rendimentos, muitas das quais constituíram agregados familiares, casaram, têm filhos, e embora não dependam completamente da Futurismo, mas uma parte significativa dos seu rendimentos dependem da Futurismo. Eles estão também afectados e esta é uma situação que me deixa altamente frustrado e preocupado. 

Com esta paragem, os prejuízos da Futurismo já são de mais de um milhão de euros?
Sim, a Futurismo era uma empresa que, por exemplo, o ano passado, facturou três milhões de euros. É verdade que o grosso, ou uma fatia muito importante da nossa facturação ocorre nos meses de Julho, Agosto, e Setembro. Mas, já estamos, nesta paragem, desde o dia 15 de Março até hoje e as receitas que deixamos de declarar já ultrapassam um milhão de euros. Ou seja, deixámos de receber um milhão de euros; deixamos de fazer chegar aos nossos colaboradores os rendimentos a que eles estavam habituados mas também deixou de entrar muito dinheiro na economia local. Temos uma facturação interessante, mas uma boa parte desse dinheiro fica nos colaboradores e fica em fornecedores. E temos manutenções, combustíveis e outras despesas. Deixámos no mercado local à volta de dois milhões 800 mil euros. Portanto, há aqui todo um ciclo na economia que acaba por ficar afectado

Aproveitaram esta paragem para fazer o quê em termos de manutenção?
Temos sempre avarias. E temos dois barcos que são grandes em tudo, grandes nas despesas e têm um peso importante nas receitas. E são barcos que requerem uma atenção muito grande, uma manutenção muito exigente.
Em 2014 ou 2015, por exemplo, só num ano perdemos mais de 500 mil euros com quatro motores que se avariaram e que obrigaram à aquisição de motores novos. Verificou-se que era uma deficiência na construção da embarcação que não levava ar suficiente para os motores e, depois, rebentava. Acontecem dessas coisas, há manutenções que têm de ser feitas, há motores que são substituídos por desgastes…
E não nos podemos esquecer da frota terrestre que temos. Tempos sete jeeps, cinco carrinhas, uma minibus e quatro carros que são utilizados pelos funcionários, nomeadamente pelos vigias para se deslocarem para as diferentes vigias que temos de cobertura da ilha. Tudo isso requer manutenção e representa uma despesa avultada, seguros, estacionamentos dos barcos nas marinas, enfim tudo isso e uma despesa muito significativa para a empresa, para além das rendas que pagamos dos espaços que ocupamos 

O Governo tem apoiado, na devida dimensão, as empresas de animação turística?  
A Futurismo tem sido apoiada, tem recorrido aos apoios em igualdade de circunstâncias com as outras empresas, quer sejam do sector do turismo ou outro. A questão que se coloca é que, agora, no fim do mês de Julho, quando acabar o lay-off, como é que nós vamos conseguir passar os meses seguintes de Inverno para que possamos, em Março próximo, ter condições para retomar a actividade. E isto sem termos de despedir funcionários.
O que está em causa é saber que mecanismos poderão existir para apoiarem as empresas para evitar que elas venham a despedir pessoal para reduzir despesas. Esta é uma decisão que temos tentado evitar a todo o custo porque reconhecemos que o nosso pessoal é um dos principais activos que temos. É pessoal bastante qualificado e, evidentemente, não temos nenhum interesse em perder esse pessoal porque, depois, vamos ter mais trabalho a preparar substitutos, vamos gastar dinheiro a investir na aprendizagem. E, assim, preferimos manter o pessoal que temos a ter que despedir.

No início da nossa conversa, a continuar a situação de inactividade devido à pandemia, chegou a pôr em causa a empresa. Qual é a sua expectativa para os próximos tempos?
É uma expectativa muito inquietante. Ou seja, neste momento não há certeza de nada e as coisas estão a mudar constantemente, quer as condições da própria pandemia, que estão sempre a ser alteradas, quer as condições dos transportes. A TAP é fundamental para Portugal e, enfim, para movimentar turistas. A SATA também está aqui numa situação indefinida. Estes são dois instrumentos fundamentais para a sua recuperação do sector turístico. É preciso haver aqui um alinhamento e uma estratégia muito bem feita e esquematizada para que possamos tirar partido destes dois instrumentos. E a SATA é crucial para trazer turistas para os Açores, abrindo canais ou linha directas para países ou cidades que possam ser muito importantes para a retoma do turismo nos Açores. 
Toda esta situação vai ser complicadíssima para qualquer empresa e, particularmente para as empresas ligadas ao turismo. Eu não tenho dúvidas que vai ser muitíssimo complicado resistir nos próximos dois a três anos. 

 João Paz/Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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