Escola Secundária da Lagoa apresenta projecto sobre fasciolose ao Concurso Nacional para Jovens Cientistas

Aos 18 anos, Diogo Sousa, Filipa Vieira e Miguel Soares estão na iminência de representar a Escola Secundária de Lagoa no Concurso Nacional para Jovens Cientistas que, apesar da Covid-19 irá, por intermédio das novas tecnologias, apurar o melhor projecto de investigação científica desenvolvido nas escolas portuguesas.
O grupo de jovens investigadores, que se preparam agora para ingressar no ensino superior, bem como a professora que de perto o acompanhou, encontra-se de momento a aguardar os resultados da competição, tendo o projecto que levaram a concurso sido desenvolvido através de um intercâmbio com uma escola secundária da Suécia, debruçando-se na biologia molecular e na fasciolose, um problema comum em ambos os locais.
O primeiro contacto que as turmas do 12.º ano da Escola Secundária de Lagoa tiveram com a biologia molecular deu-se na Suécia, aquando do primeiro intercâmbio realizado e de onde participaram cerca de 20 alunos e três professores, o que levou a que a escola sentisse a necessidade de “formalizar tudo” para se poder empenhar na concretização de um projecto.
De acordo com Alexandra Seara, professora destes alunos, a biologia molecular era “uma área que tencionava abraçar”, alargando assim os conhecimentos dos alunos que trabalhavam mais frequentemente na área da histologia, ou seja, na análise de tecidos e microscopia.
“Quando tivemos a oportunidade de ver na Suécia que eles já lidavam com a biologia molecular de uma forma normal nas aulas, ficámos entusiasmados e avançámos para o projecto Erasmus + em 2018. (…) Esta era uma área que ambicionava abraçar, porque até então o trabalho que se tem vindo a fazer na Lagoa era mais na área da histologia, e esta área da biologia molecular, que envolve o DNA, é nova, sempre me interessou e tem uma grande relevância actualmente”, diz.
Na Suécia, a escola em que foi realizado o intercâmbio é uma escola pequena, com cerca de 200 alunos, que se encontra “muito voltada para a integração de migrantes da zona da Síria, por exemplo”, tendo nos laboratórios “material básico e ultrapassado, o que já indica o tempo que passou desde que começaram a trabalhar na área da biologia molecular”, reforça a professora de biologia.
Assim, ao candidatar-se ao projecto através da União Europeia, e depois de frequentados os workshops necessários sobre o assunto e de garantir o acompanhamento com duas investigadoras da Universidade dos Açores, a Escola Secundária de Lagoa recebeu equipamento novo que, ao longo do segundo ano, permitiu que estes três alunos concluíssem o projecto de forma mais autónoma.

A fasciolose e os caracóis
Com esta candidatura, foi necessário encontrar um tema de investigação comum aos dois países, e no qual pudessem ter o apoio científico e técnico por parte das instituições académicas, levando a que as turmas envolvidas optassem por fazer uma análise da fasciolose, uma doença causada por um parasita, a fascíola hepática, “que afecta essencialmente o nosso gado bovino e que na Suécia afecta as ovelhas”.
Encontrado o elo comum, Alexandra Seara explica que o objectivo deste projecto passava por investigar se a fascíola, que chega até aos bovinos apenas depois de atingir o estado larvar dentro de um caracol de água doce, seria transmitida para os animais através de apenas uma espécie de caracol, ou se será possível existir outros transmissores do parasita.
“A mim e aos alunos fazia-nos um pouco de confusão como é que é possível no mesmo local haver outras espécies de caracóis e estas não serem transmissoras do parasita. Por isso, a nossa investigação tentou identificar nas pastagens se a transmissão da fascíola é feita unicamente por aquele hospedeiro secundário, ou se eventualmente poderia haver outras espécies de caracóis a viverem no mesmo habitat que também pudessem ser transmissores”, explica.
Isto implicou, para além dos workshops iniciais em biologia molecular, que a primeira turma envolvida no projecto mantivesse um contacto muito próximo também com o professor Frias Martins, que se juntou aos trabalhos de campo para ajudar estes alunos a encontrarem os caracóis necessários para o dar continuidade ao projecto, que envolveu também recolhas de fascíolas do Matadouro de São Miguel. Contudo, na Suécia o clima não se mostrou favorável para a apanha de caracóis, o que significou que a turma sueca ficou em desvantagem no projecto.
No ano lectivo seguinte, o que agora terminou, Diogo, Filipa e Miguel ficaram responsáveis por utilizar o equipamento de biologia molecular que havia chegado à escola, bem como todas as técnicas de recolha e amplificação dos genes, dando como terminada a investigação no passado mês de Junho.

Caracol raro surpreendeu jovens 
investigadores nas suas conclusões
Na investigação levada a cabo neste projecto de Erasmus, o grupo de investigadores conseguiu retirar conclusões interessantes. Isto é, apesar de se considerar que o sucesso do projecto poderia beneficiar de “um maior número de espécimes que permitissem tirar conclusões mais sólidas”, uma das espécies de caracóis encontrados apresentou sinais “mais positivos” e foi ainda possível registar a presença de um caracol raro nos Açores.
“Não é conclusivo se as duas espécies que nós estudámos poderão ser hospedeiros da fascíola, mas também essa questão não está fora de hipótese. Verificámos que uma das espécies, a Physella acuta, mostrou resultados que não excluem a hipótese de esta espécie poder ser hospedeira, pois há um sinal de que tem qualquer coisa de parasitismo dentro do grupo da fascíola, mas pode não ser a fascíola”, explica a Co-coordenadora do projeto Erasmus + na Escola Secundária de Lagoa.
Depois de analisado o código genético da segunda espécie recolhida pelos alunos, com recurso a uma base internacional de DNA, uma vez que há espécies que são “muito parecidas umas com as outras”, e com a ajuda também do professor Frias Martins, foi possível desvendar o mistério e perceber que se estava “perante uma espécie já tinha sido encontrada aqui nos Açores mas em que só há um registo feito dela, a chamada Ampullaceana balthica”, diz.
Independentemente do futuro, Alexandra Seara afirma que estes são projectos motivadores para os alunos, uma vez que apresentam uma abordagem menos teórica, e que por isso pode ser “uma mais-valia para eles, porque esta experiência pessoal acaba por os colocar um bocadinho em vantagem em relação a um aluno ou futuro profissional que não tenha passado nesse tipo de experiências”, conclui.

 

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