Quem tem dupla nacionalidade não necessita teste à Covid-19

Muitos emigrantes estavam ansiosos por regressar à América nos primeiros voos da Azores Airlines para Boston

O Aeroporto João Paulo II, em Ponta Delgada, voltou a ter ontem uma azáfama especial com o retomar da actividade internacional por parte da Azores Airlines. A companhia aérea efectuou ontem os primeiros voos para Boston, nos Estados Unidos, Toronto, no Canadá, e Frankfurt, na Alemanha, depois da pandemia de Covid-19 que obrigou ao encerramento do espaço aéreo.
O voo da Azores Airlines que partiu ontem à tarde com destino a Boston não foi completo, mas com mais de metade da lotação, mas com muitos emigrantes que estavam já ansiosos por regressar à terra onde procuraram uma vida melhor. A maioria tem por hábito dividir o ano entre os Açores e os Estados Unidos da América e foram, por isso, apanhados de surpresa quando os Açores encerraram o seu espaço aéreo devido ao Estado de Emergência. 
O casal Maria do Carmo e Manuel Arruda é um desses casos. Naturais do Pilar da Bretanha mas a viver em Dartmouth, Massachusetts, chegaram a São Miguel a 10 de Janeiro com perspectivas de regressarem à América em Março para voltarem em Maio e depois virem em Agosto e ficarem até Outubro. Mas a pandemia trocou-lhes as voltas e só querem voltar à América “por causa dos netinhos pequenos” e dos filhos. E nem sabem agora quando vão voltar a São Miguel já que este ano a perspectiva de viagens está bastante incerta.
Maria do Carmo Arruda explica que não lhes custou muito ficar cinco meses em São Miguel, até porque “estávamos na nossa própria casa” e têm família próxima cá, o que levou a que fossem “fácil” passar o tempo apesar da necessidade de distanciamento social. 
Confirmam que tiveram o cuidado “de manter-nos em casa. Não saíamos” e só quando terminou o Estado de Emergência o marido foi saindo para ir até ao café, “cumprindo todos os cuidados”.
Agora que regressam, Maria do Carmo e Manuel têm algum receio do que vão encontrar já que os Estados Unidos da América são um dos países actualmente mais afectados pela pandemia da Covid-19. “Estou com medo de chegar a Boston porque não sei o que vão fazer connosco”, afirma Maria do Carmo que não sabe se irão ter de fazer quarentena à chegada. A única certeza é que, tendo dupla nacionalidade (portuguesa e americana), não precisam de levar o teste feito para aterrar no destino. “Não foi requerido teste. Somos cidadãos americanos e não é preciso levar teste”, confirma Manuel Arruda que admite que a terem de fazer quarentena a irão cumprir já que vivem sozinhos. No entanto, estavam ansiosos “por reencontrar os netos”. É que apesar de “gostar da América”, Maria do Carmo diz que “não gosto mais de estar lá. O meu sangue é português” e o regresso só acontece pelos netos e pelos filhos que lá, vão fazendo a sua vida. 

“Sente-se falta 
do contacto humano”
O mesmo acontece com Aldina Lérias, natural do Nordeste mas a viver em New Bedford, Massachusetts, que regressa agora também para ver a família depois de os ter deixado em Fevereiro. Uma das filhas é enfermeira, “trabalha na linha da frente, em vários hospitais e também dá apoio ao domicílio”, mas tem feito a sua vida normal embora com os devidos cuidados. “Eles estão treinados para lidar com estas situações, ela diz que estão tão ocupados que nem têm tempo para pensar em mais nada”, refere.
Aldina Lérias está agora ansiosa por regressar pois não estava a contar ficar tanto tempo e o pior deste confinamento foi “a solidão. Senti muita falta do contacto humano. Mas numa pequena freguesia, as pessoas cumprem” as regras e não sentiu receios, nem mesmo quando começaram a surgir casos de infecção no Nordeste. 
Agora, ao viajar confessa que “não tenho receio. Se cada um tomar as suas precauções e não houver exageros. O pior é para as pessoas que pensam que isto não está a acontecer. Mas isto é a nova normalidade, mas não acho assustador. Com a minha idade, é mais uma experiência”.
Emigrada desde 1964, Aldina Lérias diz que manteve o contacto com as filhas através do telefone das novas tecnologias mas “não é a mesma coisa. Se isto não acontecesse estávamos sempre juntas. O que se sente mais falta é do contacto humano, de resto tudo se resolve”. 
Optimista, Aldina Lérias não sabe como vai decorrer a sua chegada. Apenas diz que se manteve alerta para possíveis sintomas, “cuidei da minha saúde e de uma boa alimentação”. Não vai levar teste à Covid-19 feito, uma vez que tem dupla nacionalidade e sendo cidadã americana não há essa necessidade. Quanto ao resto, “vamos ver quando chegar lá. Hei-de perguntar e vão-me responder. Se tiver de fazer quarentena não há problema, estou preparada para isso. O que é preciso é que as pessoas estejam preparadas, cumpram as regras e esperem que passe. Porque todas as outras pandemias passaram. Não foi muito agradável mas coisas muito boas sairão desta crise”, acredita confiante. 

“Ficámos preocupados”
Escolástica e Tomás Saraiva também estão confiantes na sua chegada a Fall River, Massachusetts. Até porque estiveram em São Miguel quatro meses e meio, quando vieram por duas semanas para que Tomás pudesse fazer a romaria quaresmal. Depois da promessa cumprida “fui à SATA confirmar se havia voo para seguirmos. E disseram-nos que havia possibilidade até dia 30 de Março, mas apareceu o coronavírus e ficámos fechados. Ainda consegui fazer a minha romaria, cumpri a minha promessa”. O casal confessa que “custou um bocadinho, mas tivemos o apoio dos amigos chegados” neste confinamento que tiveram de fazer em São Miguel sem haver voos para o exterior. Com netos e filhos na América, a preocupação começou “quando começámos a ver o aumento do número de casos lá e nós aqui estávamos no céu”. 
Escolástica Saraiva admite que à chegada a Boston não sabe como vai ser, se haverá necessidade de quarentena, mas “há-de ser o que Deus quiser, quer-se é fé”. Não levam teste feito porque têm dupla nacionalidade, “porque se for visitante não entra”.
Escolástica e Tomás Saraiva ficaram principalmente com os amigos Maria da Graça e João Manuel Piedade que admitem que vão sentir agora a falta do casal amigo. E mostram-se apreensivos, embora expliquem que “eles são cidadãos americanos, esclarecidos do que se passa e têm de se acautelar a si próprios para acautelar a sua saúde”, explica Maria da Graça Piedade. 

Sem possibilidade de escala 
em Toronto
Mas com o retomar dos voos internacionais, nem toda a gente ficou feliz. Cidália Mota, natural do Nordeste e emigrante nas Bermudas há 33 anos, não sabe quando é que pode regressar à sua casa naquele território. Estava de malas feitas, pronta a embarcar rumo à Terceira, para seguir depois para Toronto, de onde seguiria na Quinta-feira na Air Canadá para as Bermudas, quando foi informada pela SATA que não poderia entrar no Canadá. Aquele país, por enquanto, só está a deixar entrar passageiros com nacionalidade canadiana e Cidália Mota apenas ficaria algumas horas no país para seguir viagem. Está em São Miguel desde 9 de Março e era para ficar uma semana. “Mas fiquei este tempo todo e não sei agora quando posso voltar”, afirma. Pediu esclarecimentos e informações ao Consulado Canadiano que só devem chegar hoje, para saber em que situação fica e se poderá aterrar em Toronto para seguir viagem. Se assim for, só será possível na próxima semana já que “só um dia por semana há voo do Canadá para as Bermudas, à Quinta-feira”.
Cidália Mota diz que não foi fácil manter-se em confinamento em São Miguel, “porque a família está lá” mas agora quer regressar porque “tenho a minha vida lá que se está a atrasar”. Nas Bermudas há poucos casos de infecção pela Covid-19 e por isso Cidália Mota não tem receios do que vai encontrar. “Temos é de ter cuidados em todos os lugares onde vamos passando” e o mesmo aconteceu enquanto esteve confinada ao Nordeste. “Tivemos sempre muito cuidado quando apareceram aqueles casos. Tenho muita pena de quem partiu”, lamenta. 

Retomar as ligações
Além destas ligações com os Estados Unidos da América e Canadá onde há uma grande comunidade açoriana, a Azores Airlines espera poder retomar os voos que mantinha com Cabo Verde também já em Agosto. 
A transportadora aérea açoriana vai retomar cinco ligações por semana com Boston, durante o mês de Julho, que aumentarão para sete ligações semanais em Agosto e Setembro. Para a cidade canadiana de Toronto, a Azores Airlines vai voar cinco vezes por semana, retomando também as ligações com a capital alemã, Frankfurt, duas vezes por semana. A Azores Arlines já tinha retomado as ligações com o continente no passado mês de Junho. 
Com o retomar dos voos internacionais de e para os Açores, a Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel reforçou a equipa permanente de recolha de amostras para despiste da Covid-19 presente no aeroporto de Ponta Delgada. Quem chega a São Miguel é encaminhado pela PSP a seguir para as tendas instaladas à saída do aeroporto para recolha de amostras biológicas para despiste à Covid-19. 
                                    

Print
Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima