Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência; em Abril, será a vez do Açoriano Oriental, o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário.
Em tempo de crise na Imprensa, é um palmarés invejável, que não merece passar despercebido. Num oportuno artigo, publicado recentemente, o antigo presidente da Assembleia da República e do Governo Regional, João Bosco Mota Amaral, evocava precisamente a importância dessas efemérides, pelo seu significado intrínseco, desde logo tendo em conta a dimensão reduzida das ilhas e das suas populações.
Escrevia Mota Amaral que “manter um jornal, em edição de papel, nos nossos dias, tornou-se algo deveras heroico”. Tem razão e mais convoca a nossa admiração, perante uma resistência construída em homenagem à memória e apostada em não perder o futuro.
Quando há títulos de referência que definham, parecendo improvável a sua sobrevivência a prazo, a vitalidade da Imprensa açoriana surpreende e carece de ser estudada e amparada.
Num editorial comemorativo dos 150 anos do Diário do Açores, o seu director, Osvaldo Cabral, lembrava a permeabilidade que hoje a internet facilita, através das redes sociais, abrindo uma caixa de Pandora “sobretudo na política, com muitos a aproveitarem-se da ausência do escrutínio, da fragilidade dos media tradicionais e da ignorância dos leitores, para mentirem à vontade e apresentarem os seus factos sem contraditório”.
De facto, a precariedade dos media somente alimenta o sentimento de impunidade a que vamos assistindo, com fartos exemplos, desviando as atenções do espaço público para o “fait divers” e para fórmulas de entretenimento ou de desinformação que eliminam qualquer debate sério.
É urgente, por isso, evitar que o manto espesso do esquecimento cubra três histórias de outros tantos jornais centenários, que precisam de ser contadas e revividas, nos Açores e no Continente.
A proposta de Mota Amaral no sentido de envolver a Universidade dos Açores num ciclo de conferências ou de colóquios a propósito destas efemérides, só pode ser vista como uma ideia mobilizadora, por quem ainda acredita que o jornalismo tem um papel fundamental a cumprir numa sociedade democrática e que não pode falecer à porta das redes sociais.
Dinis de Abreu
Jornalista e antigo Director
do Diário de Noticias