15 de fevereiro de 2020

Cesto da Gávea

O preço do tempo

Todos conhecerão o velho aforismo “tempo é dinheiro”, rebuscado da frase em inglês“remember time is money”, escrita por Benjamin Franklin em 1748, quando aquele que foi um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos e da Universidade da Pensilvânia, publicou um artigo com o significativo título de “Conselho a um jovem comerciante”. Era um ensaio destinado a estigmatizar a preguiça e valorizar o trabalho, o que para Franklin era condição “sine qua non” para o sucesso. Não consta que o exemplo tenha tido sempre seguidores fiéis, pois há quem aprecie o que um dia me disse um colega liceal: “se o trabalho fosse bom, não nos pagavam para isso!”. Curiosamente, consta-me que esse meu ex-colega emigrou para a América e teve sucesso, julgo que à custa de muito esforço e tempo de trabalho.

Com este episódio da minha juventude se explicam, por via travessa do que disse Benjamin Franklin no século XVIII, uma série de êxitos adiados pela Humanidade, uns por pura preguiça, outros por ganância e outros porque é mais fácil “empurrar com a barriga” os problemas, do que ganhar tempo (e dinheiro) resolvendo-os na altura própria. O mundo, a União Europeia, Portugal e os Açores abundam em casos destes, como se de uma fatalidade telúrica se tratasse, o que não é verdade, pois há sempre algum “gigante” que ganha balúrdios com o atraso do tempo. A indústria fitofarmacêutica é um desses glutões, o que se pode concluir da questão do glifosato, um herbicida conhecido por Roundup, largamente utlizado em agricultura desde os anos 70 e igualmente de aplicação habitual em jardins, bermas de estradas e ruas citadinas. A União Europeia vem desde há 30 anos discutindo a sua probabilidade cancerígena, mas sucessivamente adiando decisões regulatórias (a última foi em 2017), por óbvias razões comerciais; sendo que, quanto mais adiarem, mais dinheiro e qualidade ambiental se perde, atrasando as soluções prementes que a ecologia exige. Países europeus como a França, através da sua autoridade nacional de controlo sanitário, decidiram começar a proibir a comercialização, até ao final deste ano, de mais de 30% dos agroquímicos contendo glifosato. Fazem-no tarde e a más horas, antes de previamente terem preparado os agricultores para a transição, em vez de os deixarem “desenrascar-se”. As entidades oficiais tiveram anos de imobilismo, incitando o mundo agrário a produzir mais e mais – e agora, obrigam-nos a recuar, numa altura crítica em que o aumento da população mundial pede mais alimentos. Este panorama deve levar-nos a refletir muito bem sobre a produção agrária aqui nos Açores, porque estando na União Europeia, não temos só vantagens, mas também obrigações. 

Deixando o assunto dos agroquímicos, setor que foi minha “praia” muitos anos, entramos noutro em que o tempo foi dinheiro imperdoavelmente perdido, sem que ninguém preste contas. Trata-se do ITER—Reactor Experimental Termonuclear Internacional,  o mastodonte destinado a dominar a energia nuclear de fusão, montado a partir do Centro de Estudos Atómicos de Cadarache, instalação que utilizávamos para marcar joaninhas, nos trabalhos realizados sobre voos migratórios. O projeto conjunto de 7 países, iniciado em 1988, inclui a União Europeia que contribuiu com 45% dos muitos milhares de milhões necessários para “aprisionar o calor do sol” num gigantesco complexo magnético conhecido como tokamak. Só entre 2013 e 2015, investiram-se 15.000 milhões nesta energia atómica do futuro, isenta de resíduos radioativos. Nos anos anteriores – e foram 22 – gastaram-se rios de dinheiro a produzir conhecimento e iniciar as obras do tokamak, para proveito de uma série de startups que agora surgem, inovadoras e privadas, apostando na redução das dimensões da máquina, redução de riscos de fuga e tudo o que torne a fusão nuclear viável e rentável. Rivalidades e competições entre países e blocos atrasaram décadas o ITER, conduzindo a uma situação em que alguns especialistas afirmam que a fusão nuclear está muito atrás do solar e da eólica, ao ponto de daqui a 50/60 anos, quando estiver disponível, representar apenas 1 a 2% do mercado energético. Tendo custado até lá, pelo menos 2.000 milhares de milhões, sejam dólares ou o que então vigorar. Aqui fica o alerta para quem arrasta os pés na geotermia açoriana. 

Porque não é só nestas novas energias, mas também nos combustíveis fósseis, que a revolução tecno-ecológica está a impor as suas regras, sendo o exemplo mais ameaçador o da regulamentação IMO 2020, que se vem desenhando desde 2000, e só não via, quem não queria ver. Substituir óleo pesado (“bunker oil”, refugo poluente e barato queimado nos grandes navios porta-contentores) por fuel com 7 vezes menos teor de enxofre, é ecológico, mas custará fortunas imensas, onerando a bolsa dos consumidores. Perdeu-se tempo -- e com isso, alguém ganhou imenso dinheiro. 

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Categorias: Opinião

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