7 de fevereiro de 2020

A política e o que sobra

A reconfiguração dos partidos de direita começou em 2015, mas o mais recente congresso centrista serviu como mais um passo nesse sentido. Na bela cidade de Aveiro, o CDS realizou o seu congresso eletivo, com o propósito de substituir Assunção Cristas na liderança dos centristas. Dos vários candidatos que se perfilaram, apresentando uma moção global, João Almeida seria o mais preparado e, com isso, o mais esperado pela liderança cessante para arregimentar o poder. É o único parlamentar, eleito pelo distrito dos canais, tendo já exercido funções governativas. Foi secretário-geral e porta-voz centrista. Chegou a Aveiro quase eleito e saiu do Parque de Exposições e Congressos – casa da Feira de Março – em segundo lugar, perdedor, colocando-se à margem da nova direção centrista. Vejamos como será a sua – e do grupo parlamentar a que pertence – relação com a presidência eleita. 
Vários factos curiosos envolveram esta realização. A cidade, que inúmeras vezes elegeu Paulo Portas como primeiro candidato do distrito ao parlamento, foi agora o espaço no qual o portismo acabou, deixando para trás todos os seus delfins. Os cinco candidatos iniciais – dois desistiram a favor do presidente eleito, já no congresso – eram homens, concorrendo para substituir, na liderança, uma mulher. Terá levado o escrutínio de vencida aquele que imprimirá um cunho mais conservador, mais encostado aos valores da direita tradicional. Uma última referência ao facto de, no panorama partidário nacional, os democratas-cristãos manterem a eleição do líder em congresso. 
Ao contrário da generalidade dos partidos com implantação nacional, o Centro Democrático e Social – Partido Popular, continua a manter a eleição do seu representante máximo em congresso, e não através de eleições diretas primárias. Neste caso, a reunião magna é esvaziada de pendor político já que servirá apenas para a apresentação da nova linha política de quem foi eleito poucas semanas antes, coadjuvado pelos novos órgãos internos que consigo irão comandar a força política. Do ponto de vista meramente político e comunicacional, ver a intensidade e dinâmica de uma reunião com milhares de delegados, representantes dos militantes das suas organizações, a decidir sobre quem os comandará, é um momento único. Pode ser menos democrático – já que votam apenas os congressistas e não a generalidade dos militantes – mas dá muito mais vida à reunião magna e tem um certo pendor estoico e fatalista que o diferencia. 
À imagem do CDS, também o PSD foi recentemente a votos, começando pelas primárias. Ao congresso chegará Rui Rio, já eleito. Faltará saber se com o partido unido, depois de ter alcançado uma segunda vitória, ainda assim menos expressiva do que julgava. A aproximação de Passos Coelho à intervenção pública, poderá indiciar uma alteração do seu posicionamento a concretizar daqui a dois anos. Não sei se a relação entre um PSD mais liberal na economia e um CDS mais conservador nos costumes poderia levar a casamento, mas todos sabemos que, em momentos de aflição, as maiores diferenças também se esbatem. 
Uma última nota sobre Joacine e Ventura. A primeira, pretendeu mais direitos regimentais para os deputados não inscritos, o que soou a uma jogada de antecipação. O segundo, referindo-se a uma proposta da primeira, achou por bem indicar-lhe a porta de saída do país. Uma vergonha para qualquer um. Intolerável num parlamentar. 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima