Como foi o início da sua vida militar?
O cumprimento da minha vida militar foi, como o de todos os jovens da época, sendo obrigatório. Fui integrado nas Forças Armadas Portuguesas em Janeiro de 1969. Fiz a recruta no CISMI – Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, em Tavira. Depois, sou escolhido para Operações Especiais pois uma coisa que nunca fiz na tropa foi oferecer-me. Voluntário, nem para comer! A máxima era essa: na tropa, voluntário para nada! Mas como fazia parte da selecção do CISMI – praticava desporto e tinha algumas facilidades atléticas – fui escolhido. Realizei testes psicotécnicos, para além dos que já tinha feito inicialmente, bem como provas físicas. Só que numa prova física, magoei-me no joelho e fui parar à alimentação - a minha família tinha uma unidade industrial, na área dos lacticínios e estava familiarizado com a área alimentar e fui parar à alimentação. Estive na Póvoa de Varzim num curso com 100 pessoas. Gostei bastante e foi muito interessante para mim. Criou em mim um espírito de revolta interior comigo próprio porque daquelas 100 pessoas, só 5 é que não iriam para o Ultramar. Havia uma “luta” e um “desempenho” entre uns e outros para tirar melhores notas. Tínhamos 13 disciplinas e estudávamos nos fins de semanas. O que estudei lá [na tropa], aos 21 anos, se o tivesse feito enquanto era estudante não teria ido a nenhum exame. A maturidade ali já era outra. Mas também não perdi nada por isso, pelo contrário. Enriqueci os meus conhecimentos e facilitou-me a vida no desempenho das minhas funções durante o cumprimento do serviço militar.
Para onde foi mobilizado e qual a sua função?
Estive aqui no Regimento de Infantaria 18, nos Arrifes, durante 6 meses. E depois, fui mobilizado para Moçambique. Curiosamente, era o único açoriano do meu batalhão, o Batalhão de Artilharia 2901. Este saiu do Regimento de Artilharia Pesada 2 de Vila Nova de Gaia e fomos para Moçambique no dia 5 de Janeiro de 1970. Tinha uma missão muito específica: era o elemento de alimentação do batalhão. Cada companhia tinha os seus elementos de alimentação e eu era o furriel de alimentação pois era indivíduo mais qualificado do batalhão. Tinha a responsabilidade de requisitar bens alimentares e distribuir pelos outros furriéis de alimentação. Na guerra, não ficávamos todos no mesmo sítio e em termos logísticos não era fácil. Desempenhei as minhas funções e normalmente, o homem da alimentação era uma persona non-grata porque havia quem se queixasse da comida. Mas no meu caso não eram assim. Era um indivíduo querido da companhia que tinha o cuidado de, dentro do contexto onde estávamos inseridos, fazer sempre o máximo possível pelas pessoas pois só havia: nós, a guerra e a natureza. Tinha a vegetação e o mato. Não havia nenhum aldeamento à volta. Estive em Cabo Delgado no Planalto dos Macondes, em Nangololo, a 40 quilómetros de Mueda.
Não tinham então contacto com ninguém de lá?
Não. Não havia populações. Aliás, as pessoas que fomos render, neste caso o batalhão, tiveram 11, 12, 13 meses sem ver ninguém. Eles olhavam para nós com um ar mazelento a pensar: “estes estão fresquinhos, chegaram agora”. Eram jovens com 22 anos e estavam magros - dificuldades inerentes à guerra (e ao contexto, claro). Perante o cenário onde estávamos, tive sempre o cuidado de dar o máximo que podia aos nossos homens através da alimentação. E tinha mais uma particularidade. Havia as secções dentro dos pelotões e se houvesse alguém que celebrasse o aniversário, não era só o aniversariante que beneficiava de um mimo: era ele e a secção onde estava integrado. Isso ajudava a passar os momentos difíceis. As pessoas ficavam reconhecidas… Foi a parte que não esperava que corresse tão bem. Às vezes, reunimo-nos com o comandante do batalhão, com os comandantes operacionais e com os comandantes de companhia e chegávamos à conclusão de que a comida sabia a sangue porque fazer 40 quilómetros de Mueda a Nangololo e para outros lugares onde estavam as outras companhias do batalhão era cansativo. Cheguei a levar uma semana, de viatura, para percorrer 40 quilómetros por causa das emboscadas, das minas, das armadilhas. Uma semana sempre em cima da viatura! Chegávamos à unidade e metíamos a roupa interior para o lixo…
Passou por situações mais complicadas?
Sim. Inclusive, fiquei ferido numa mina anti-carro. Mas antes de chegarmos ao sítio onde nós íamos, a Nangololo, éramos duas companhias e mais dois pelotões de segurança que já lá estavam. As companhias deslocavam-se com um pelotão de segurança à frente, havendo um outro pelotão que ao fazerem reconhecimento do caminho, ao encontrarem-se e verificarem que estava tudo bem, as companhias passavam. O nosso baptismo de fogo foi nessa situação antes de chegarmos à guerra. Eram 300 homens a fazer fogo simultaneamente e não tínhamos experiência nenhuma! Portanto, antes de chegarmos ao sítio, já tínhamos sido “baptizados”. Foi uma coisa indescritível. Só vivendo…
Para ir de Nangololo para Mueda, ia-se de helicóptero ou de avião. Fazia o reabastecimento desde os bens alimentares, ao material bélico, os combustíveis, tudo! A coluna que era responsável apanhava muitas emboscadas. Havia flagelações e amputações… nós assistíamos àquilo tudo. Íamos em socorro dos outros. Uma coisa que aprendi na guerra foi: a ser humano. Não deixava ninguém para trás. Se alguém estava aflito, íamos busca-los todos e fiquei ferido numa situação dessas.
Quando se fazia uma evacuação, esta era feita através de helicóptero. Normalmente, fazia-se aos feridos pois os mortos tinham outro tratamento. Mas naquele momento, o helicóptero não foi porque estava noutras situações bélicas. Disseram-nos então que havia um avião, mas este não podia aterrar onde estávamos, portanto fomos buscar os feridos. Mas trouxemos mais mortos e mais feridos porque apanhámos a mina anti-carro. Depois disso… acordei e pensei que não tinha a perna nem a vista esquerdas. Sentia um ardume na perna e não via nada. Vieram mais reforços em nosso auxílio. Pegaram em mim e meteram-me numa viatura, inclusive um dos mortos em cima de mim. Fui evacuado de avião para Mueda. Lá, não fui operado porque não haviam meios próprios. Ou amputava-se ou então mandava-se para Nampula. No dia a seguir, fui para lá onde fui operado. Nunca fui tão bem tratado na tropa como no hospital militar… em África! Em Lisboa, não era assim pois era uma babilónia. Muita gente! Estive 6 meses no hospital em Lourenço Marques. Andei 3 meses numa cadeira de rodas. Mais 3 meses de muletas. Fiz fisioterapia, não recuperava e vim evacuado para Lisboa.
E quanto tempo esteve em Lisboa?
Estive durante 9 meses e fui dado como incapaz de regressar ao cumprimento do serviço militar. Sou considerado deficiente das Forças Armadas. Voltei para São Miguel em fins de Agosto de 1971.
Teve que readaptar a sua vida dada as mazelas físicas.
Praticava desporto e deixei de o fazer. Tive que mudar a minha vida profissional: trabalhava na parte técnica de uma unidade industrial e não podia andar muito pois a mobilidade era reduzida e fui para a parte administrativa. Voltei aos estudos, nomeadamente para estudar contabilidade.
Voltou mais enriquecido, mas como se “encara” as mazelas psicológicas?
É algo que questiono a mim próprio. Como é que, psicologicamente, tenho aguentado isso tudo? Tanto a parte da guerra em si, a mudança, depois a minha integração na vida, ao longo dos anos relativamente os altos e baixos que a vida traz…
Em 1975, leio nos jornais que havia um encontro no Forte de São Brás de antigos combatentes para montarem uma delegação dos Deficientes das Forças Armadas. Fui, por curiosidade, e saí a fazer parte de uma comissão instaladora. Isto coincidiu com os primórdios da televisão nos Açores. Fomos divulgar a televisão à comunicação social. Fui pertencendo sempre aos órgãos sociais da delegação aqui nos Açores. Estive lá 31 anos. Ajudámos muitas famílias, inclusive pessoas que estão emigradas para os Estados Unidos e Canadá. Naquela altura [da guerra], os soldados regressavam de África e queriam ir ter com a família. Nós, como militares açorianos, sofremos mais do que qualquer outro indivíduo que estivesse na guerra.
Porque diz isso?
A insularidade. As ausências da família – família cá na ilha ou na diáspora, as namoradas – muitas estavam emigradas. Saímos primeiro para a guerra e chegávamos quase 1 mês depois a casa em relação aos outros. Foi uma realidade. Os nossos militares quando regressavam do continente, tinham que vir por São Miguel pela Terceira, mas nem todos eram dessas ilhas: tinha pessoal de todas as ilhas e ainda tinham que esperar por mais um transporte para ir para a sua terra. E houve quem tivesse as namoradas noutras ilhas. Pessoas com 22 ou 23 anos… era uma situação muito violenta. Mas nós [açorianos] éramos serenos, calmos e com integridade, resolvemos tudo.
A outra fase foi a da deficiência: cá, nos Estados Unidos e no Canadá. Como se iria resolver essa questão? Pessoas amputadas tiveram que se readaptar: praticavam desporto e tocavam nas bandas de música, tiveram que o deixar de fazer. Tiveram que se despedir de empregos. Namoradas que ao verem alguns dos namorados amputados, acabavam o relacionamento! Mas outras foram senhoras! Muitas delas são heroínas, que nunca acabaram com os namorados independentemente de como os encontraram após regressarem da guerra. Ultrapassaram-se essas fases todas com muito custo.
Ao ir para o Ultramar, tinha noção do que poderia suceder?
Por acaso, tinha. Na nossa casa, éramos 5 irmãos e 3 foram para a guerra. Os meus pais sofreram muito durante 7 anos: desde a saída do primeiro filho à entrada do último filho. E dois dos filhos são deficientes das Forças Armadas. Quando saímos de casa para ir para a tropa, os meus pais tinham energia. Eram dinâmicos e tinham vida! Mas quando regressamos, vimos pessoas “velhas” e cansadas. Não foi fácil…
Qual considera ter sido uma das principais dificuldades na época?
A falta de comunicação, nomeadamente a falta de correspondência da família. Recebíamos o correio de 3 em 3 semanas. Vi homens chorarem por falta de comunicação da família. Eu era das pessoas que mais recebia correspondência e tive um camarada meu da Guarda que pedia-me uma carta das minhas para ler pois os pais não sabiam escrever e tinha os irmãos emigrados. Cheguei a pegar em 25 cartas minhas e dar à escolha para os meus camaradas lerem.
Como vê o papel da Associação dos Deficientes das Forças Armadas?
Lutou-se muito e continuamos a lutar. Neste momento, os órgãos sociais da nossa Delegação têm um papel importantíssimo que é o apoio psicológico relativamente às situações pós-traumáticas. A Associação tem psicólogos e assistentes sociais. Há deficientes que estão a tomar conta das suas esposas, que estão mais debilitadas do que eles. E é dado acompanhamento a essas pessoas também.
Com as novas tecnologias, para as pessoas não ficarem tão desintegradas da sociedade actual, damos apoio também na área da tecnologia. O Estado Português é sensível politicamente. Na prática, não. Gostei de estar na Associação, mas houve muitas incompreensões. Mas fizemos uma obra meritória. Temos uma sede com sustentabilidade para a delegação.
O governo, desde a guerra e o seu final, não soube acompanhar os militares?
Não. Tudo o que obtivemos foi através de conquistas e manifestações. E hoje em dia, continuamos a ter muitos problemas para resolver.
O militar não discute políticas, cumpre ordens. E nós cumprimos ordens que nos foram dadas. As guerras existem, mas não fazem sentido. Nunca há uma guerra justa. Em Luanda, construía-se um prédio por dia. A guerra fez-se em 13 anos e nesse tempo, o crescimento económico no Ultramar foi de 6,5% ao ano. Quando a guerra acabou, o país não tinha dívidas. Tinha iliteracia, mas houve a preocupação em dar o ensino básico a todos. A escola onde estudei não foi construída após o 25 de Abril. Foi feita no âmbito do Plano dos Centenários. Em África, havia um princípio de levar a escola às aldeias e saúde também. Basicamente isso. Quando os portugueses deixaram Angola, e os cubanos foram para lá reforçar o apoio ideológico ao MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, ficaram admirados pelo facto de os angolanos terem feito revolução com a cidade de Luanda da maneira que estava. Saquearam tudo, claro. Tal não era a qualidade de vida que havia lá. Mas o que me dói como ser humano foi ter sido utilizado como um peão de certas ideologias. Naquela altura, havia o capitalismo e o comunismo. E éramos os peões de uns e de outros.
Como cidadão, causa-me pena e tristeza de algumas pessoas não receberem apoios que já existem. Por exemplo, se uma viatura com soldados sofrer uma emboscada e, ao saltar da viatura, levar um tiro é considerado “ferido em campanha”. Mas se uma pessoa fracturar a bacia nessa emboscada e ficar paraplégico, é considerado em “ferido em serviço”. Há um entendimento diferente entre quem foi ferido em campanha e em serviço. É preciso mudar a legislação.
Outra situação tem a ver com o stress pós-traumático. Não havia tratamento psicológico. E ainda bem que hoje em dia existe acompanhamento psicológico em casos de acidentes e outras situações. Mas e para mais de 1 milhão de homens que estiveram 2 anos fora de casa? Com arma na mão a pensar como iria ser? A nossa conversa lá era sempre a última conversa; o nosso olhar e gestos eram sempre os últimos pois não sabíamos se no minuto seguinte iríamos estar vivos. Não sabíamos. Somos vistos como uns indivíduos que andaram para lá em África a matar pessoas… os médicos curaram as pessoas. Os alferes e os furriéis ensinavam as pessoas. Os portugueses davam comida ao inimigo indirectamente pois no final do dia, as pessoas iam ao aquartelamento com as crianças buscar comida e estas davam ao pai que depois ia para o mato, enterrar a enxada, desenterrar a arma e depois era o que era. Porque alimentávamos? Porque havia uma guerra psicológica pois nós não podíamos maltratar as populações, obviamente! No meu caso, não havia aldeamento à volta e como alimentávamos? Havia uns indivíduos chamados de “mainatos”: eram os negros que se integravam nas companhias para fazerem limpezas. Esses eram combatentes do outro lado e sabiam de tudo.