5 de fevereiro de 2020

Cidadania

Cidadania e Opções de Vida


Os poderes públicos nos Açores são omnipresentes e têm um peso muito significativo no sistema económico e social. Desde logo pelos elevados orçamentos que dispõem: o governo regional e as 19 autarquias, que criam inúmeras e variadas dependências individuais e colectivas. O governo regional tem uma máquina comunicacional fortíssima que potencia as comunicações favoráveis e minimiza as desfavoráveis. Por seu lado as autarquias também criaram os seus gabinetes de comunicação que trabalham minuciosamente as suas iniciativas, por mais irrelevantes que sejam. Estas máquinas de comunicação e de propaganda condicionam, e em muito, a opinião dos cidadãos. É porventura uma ferramenta crucial para a perpetuação do poder e ausência de alternância democrática. Recorrendo amiúde à pós-verdade, que não é mais do que a omissão da verdade quando não interessa ao poder.
E estes poderes públicos apreendem iniciativas económicas, sociais, culturais e até religiosas próprias dos cidadãos e dos crentes em sistemas democráticos evoluídos, promovendo o assistencialismo que só tem produzido milhares de pobres e uma sociedade desigual, a mais desigual do país.
E por isso o notório desequilíbrio existente entre a classe política e seus apaniguados e a sociedade civil. Uma classe política bem instalada, arrogante e poderosa, e uma sociedade civil apática e subserviente,  para eventualmente poder sobreviver neste sistema.
E das duas uma. Ou os cidadãos entram na onda e tornam-se serventuários dos poderes e sem opinião, com benefícios individuais, familiares e empresariais. Ou os cidadãos vivem na margem, com opinião própria e com princípios que sedimentam o seu carácter, mas sem os ditos benefícios individuais ou colectivos, porventura com a consciência tranquila que não se vendem por um prato de lentilhas, que é como dizer, por um subsídio eventual, por um emprego, ou por um reconhecimento por menor que seja. São opções de vida para quem vive nestas ilhas.
Apesar de tudo há sinais de mudança, embora ainda tímidos. Exemplos recentes do movimento Salvar a Ilha que junta várias associações ligadas ao ambiente e cidadãos de todos os quadrantes políticos e sociais, com o intuito de impedir a construção da monstruosa incineradora para queima de lixos em S. Miguel. O movimento cívico Cidadania Ativa que defende a revisão do sistema eleitoral dos Açores, visando reduzir os deputados regionais de 57 para 45 e aumentar os círculos eleitorais de nove para 19, as reacções dos cidadãos à construção do Miradouro na Lagoa do Fogo, a petição pela não construção de um hotel de 568 camas na praia do Degredo em Vila Franca, a petição contra a construção de um aquário privado no porto de Ponta Delgada. Estes movimentos e iniciativas da sociedade civil revelam que os cidadãos desejam ser parte activa nas decisões políticas, muito para além do depósito periódico do voto na urna de uma qualquer escola. E querem um poder político mais próximo, humilde e dialogante, próprio de democracias evoluídas. Nesta desejada e esperada mudança as redes sociais podem ser cruciais na medida em que fogem ao controlo das máquinas políticas existentes e divulgam opiniões diferentes do establishment.

Luís Anselmo

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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