Natural de Leiria, Inês Ribeiro conta que a ligação à criatividade começou desde muito cedo. “Produzo peças desde os 14 anos. Surgiu da necessidade de ter algum dinheiro para férias e para as coisas todas que às vezes os pais não nos podem dar, como festivais. Comecei na altura a trabalhar a pasta fimo. Fazia algumas coisas e vendia, conseguindo sempre algum dinheiro para as coisas que necessitava. Depois, comecei a perceber que a pasta fimo, derivada do petróleo, era algo tóxico, pensei logo em não continuar a trabalhar com aquele material. Foi aí que comecei a trabalhar a cerâmica”, explica.
Antes de fazer formação específica em cerâmica, já trabalhava nesta em sua casa e depois cozia as peças no forno de uma amiga que também é ceramista, isto também já durante a licenciatura. Com um percurso iniciado no secundário, nas artes, Inês Ribeiro licenciou-se em Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design, nas Caldas da Rainhas, com bacharel em Escultura. “O que explorei mais, na altura, foram as técnicas de impressão - serigrafia e gravura.” Após concluir a licenciatura, Inês Ribeiro ingressou no curso de Cerâmica Criativa no Cencal – Centro de Formação Profissional para a Indústria de Cerâmica, também nas Caldas da Rainha, que durou 1 ano. A partir daí, trabalhou sempre a cerâmica até aos dias de hoje, nomeadamente desde 2006.
Há cerca de 11 anos, veio para o arquipélago dos Açores leccionar Educação Visual, tendo estado nas ilhas de São Miguel e da Terceira. No entanto, veio novamente para São Miguel para colaborar no Serviço Educativo do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas durante 1 ano. É artesã no CRAA - Centro Regional de Apoio ao Artesanato há algum tempo, tendo já dado formações em diversos contextos e em diversas áreas, estando a afunilar mais para a cerâmica: “costumava dizer que os outros trabalhos é que eram o meu part-time. Ocupavam-me era demasiadas horas porque sempre produzi. Enquanto não tive condições para trabalhar a cerâmica, porque esta exige um espaço com características específicas como ter uma mufla para cozer, por exemplo. Nem sempre tive esse espaço. Contudo, trabalhei sempre em ilustração. O meu trabalho efectivo neste momento é a ilustração e a cerâmica. E o trabalho que faço em cerâmica é um trabalho que vem sempre da linguagem da ilustração.”
Enquanto trabalhou no Arquipélago, Inês Ribeiro passou a residir na Ribeira Grande numa casa “que tem espaço para ter um ateliê, contudo já começava a ser muito limitado aquilo que eu podia fazer lá porque não tinha muito espaço. A cerâmica é um processo de trabalho que exige espaço, ou seja, estava a ver-me limitada a fazer coisas demasiado pequenas por falta de espaço. Às vezes, são tantas ideias que se torna complexo distinguirmos o que queremos fazer porque fundem-se as técnicas e as matérias”. Foi assim que surgiu o nome “Fábrica das Ideias”, o projecto de Inês Ribeiro. “Eu tinha muitas ideias e tinha de fazer alguma coisa com elas. Então pensei que realmente sou uma fábrica de ideias e deviam era pagar-me para ter ideias” (risos). E assim ficou o nome para o seu projecto. O logotipo da “Fábrica das Ideias” é um Homem-Pássaro que tem na asa o formato da mão. “Foi das primeiras representações que comecei a fazer em ilustração e que depois se tornou mais tarde num manifesto, que era um homem que queria ser livre e fazer o que gostava. Comecei a desenvolver esse personagem do Homem-Pássaro até chegar ao logo da Fábrica das Ideias. Na altura, fiz um upgrade para ser um Homem-Pássaro-Mão, que é artesão.
A “Fábrica das Ideias” encontrava-se num espaço pequeno, necessitando de “fugir” para um espaço maior, “só que a questão económica era sempre uma complicação”, como referiu Inês Ribeiro.
Matéria 47: do sonho à concretização
Ao dar uma formação no Centro Regional de Apoio ao Artesanato, em 2019, conheceu Joana Fernandes. “Foi minha formanda e após isso, ficámos com alguma ligação derivada ao trabalho. Ela falava comigo porque tinha algumas dúvidas e queria esclarecer algumas coisas do processo de trabalho. Começamos a falar e a perceber que tínhamos objectivos em comum.”
Tal como Inês Ribeiro, Joana Fernandes tem um percurso académico ligado com as artes, “mas também nunca tinha tido tempo para se dedicar realmente à criatividade.” Natural de Lisboa, neta de um micaelense e filha de um terceirense, Joana Fernandes passou por várias áreas, nomeadamente fotografia e escultura. Mas após 5 anos a trabalhar como assistente de bordo, algo que referiu “não ser a sua praia”, veio para São Miguel há cerca de 1 ano visto que tinha o sonho de viver nas ilhas desde miúda. “Quando vim para cá, comecei a trabalhar nos teares, como autodidata. Já pintava e tinha algumas noções de cerâmica, mas não tão aprofundadas. Também queria trabalhar com escultura e isto foi uma oportunidade espectacular: ter um espaço onde pudesse trabalhar [uma oficina], com uma tutora, uma sócia-tutora” (risos), explicou Joana Fernandes. Com um sonho e objectivos comuns, pensaram: “vamo-nos organizar e juntar porque nós duas temos mais força do que uma. E foi aí que começamos a procurar espaços para que fosse possível concretizar este projecto.”
Encontraram o espaço em Setembro de 2019 e a 30 de Novembro, abriram ao público. “Durante os 3 meses, estivemos a trabalhar aqui, em pinturas e a fazer as estantes.” É a casa do “Eixo Artezanista”, o projecto de Joana Fernandes, mais ligado às tapeçarias. Foi na formação dada por Inês Ribeiro que Joana Fernandes começou a adquirir conhecimento em cerâmica.
O espaço encontra-se equipado “com condições específicas e muito boas para trabalhar a cerâmica à vontade. Futuramente, vamos ter outras valências dentro da cerâmica que queremos trabalhar. Mas o homem sonha e a obra vai nascendo” diz Inês Ribeiro. Anteriormente, o espaço onde se encontram era um atelier de fotografia. Com benefício de luz natural e várias divisões, bem como um jardim, Inês Ribeiro e Joana Fernandes após uma procura imensa de vários locais, encontraram “aquele que reunia as condições que precisavam e aquele foi um achado!”, como se estivesse à espera do projecto das proprietárias.
O Matéria 47 tem estado a ser desenvolvida passo a passo. “Apesar de ser devagar, as coisas têm vindo na altura em que são de facto necessárias. Não nos adianta muito andarmos com grandes pressas pois as coisas têm vindo a ter connosco. Nós precisávamos de alguém que nos ajudasse com as madeiras, por exemplo, conhecemos um vizinho que foi carpinteiro durante 30 anos no Canadá, está cá há 3 anos e ele ajudou-nos”, explicou Joana Fernandes. “Tenho a sensação de que este projecto nunca vai ter fim” acrescentou relativamente à conclusão do espaço. “Vai estar sempre em constante metamorfose” pois “a própria criatividade nunca acaba”. Acrescentam que a mãe de Jorge, o carpinteiro, que é a residente mais antiga da rua, é como uma madrinha, e já faz publicidade por onde passa, da forma mais antiga: de boca a boca. “Nós queremos trabalhar também com pessoas da idade dela, que estão paradas em casa”. Para além disso, gostariam de estabelecer parcerias com diversas entidades, como a Universidade por exemplo, “mas devagar as coisas vão vindo”.
O desafio de trabalhar
no ramo das artes
“Se não vendermos, não fazemos dinheiro. Se não dermos formações, igual. É um exercício grande que ambas fazemos para conseguir manter a casa”. Tendo cada uma o seu projecto, “já começamos a misturar e a fazer coisas em comum. Não faço teares (risos). A Joana já mistura peças que faço com o tear. A fusão é inevitável”, referiu Inês Ribeiro.
Apesar de só ter aberto há 2 meses, as proprietárias dizem que tem corrido bem “e que a aceitação do público tem sido muito boa. Para Inês Ribeiro e Joana Fernandes, o feedback das pessoas tem sido favorável. Muitas pessoas procuram workshops de cerâmica que gostariam de realizar e que não encontram na ilha, preenchendo assim uma lacuna. O primeiro workshop que arrancou no Matéria 47 foi o desafio para elaborar um conjunto de chá durante 3 sábados. Também já têm agendado uma formação para crianças que decorrerá muito em breve. “O nosso objectivo é chegar a todos os públicos desde os infantis até aos seniores”. Inês Ribeiro conta que uma vez ao olhar para a sua filha, lembrou-se “que tem de fazer uma formação para crianças de 2 anos. O barro permite isso e é algo que as crianças podem mexer à vontade, estimulando a motricidade deste modo e também a concentração. De igual modo, é um benefício para os adultos. Contudo, sendo época baixa, nota-se um decréscimo enorme de pessoas a passar na rua.” Não se encontrando totalmente no centro de Ponta Delgada, explicam que terão de apostar numa boa estratégia de marketing para conseguir levar pessoas ao espaço. “As pessoas têm gostado muito do espaço. A sensação que têm quando entram é de harmonia”, referiu Joana Fernandes. No entanto, a rua onde se encontra o Matéria 47 vai de encontro ao Mercado da Graça, o que faz com que passem muitos turistas. “Esperemos que daqui para frente se note o fluxo que notámos no passado mês de Outubro”, frisou Inês Ribeiro.
Brincos, murais, ímans e números de porta são as peças que chegam mais facilmente a todo o tipo de público, na opinião de Inês Ribeiro. “Este tipo de peças associadas à cerâmica é algo que as pessoas gostam bastante. Peças únicas e exclusivas é o que gosto de trabalhar. Todas as peças são únicas, a não ser que me solicitem várias iguais, e mesmo assim não sairiam exactamente iguais” (risos). As pessoas também encomendam números de porta diferenciados, bem como lembranças para baptizados, casamentos e aniversários.”
No passado mês de Outubro, no âmbito da Mostra de Cinema Imprópria, Inês Ribeiro produziu as peças que foram oferecidas às homenageadas no evento: “deu-me imenso gozo fazer porque foram trabalhos feitos à medida de cada uma, o que implicou que fosse estudar o percurso delas para poder representar aquilo que eu entendia de cada uma delas”.
Para além do Matéria 47 e da loja online, é possível encontrar produtos de Inês Ribeiro no Louvre Michaelense e na Loja Marota, em Ponta Delgada, na Criaçores, na Ribeira Grande, no Museu de Vila Franca do Campo e na Adega das Artes, no Pico.
A questão da aquisição de materiais e equipamentos, é um desafio no que toca à insularidade. Uma vez que o material utilizado, desde o barro aos vidados, tem de vir de fora. “Implica que tenhamos de ter sempre um planeamento à frente daquilo que nós vamos precisar. Se vou ter uma formação tenho que encomendar o material todo com bastante antecedência para não faltar nada naquele dia. É uma questão de logística e pagamento de transportes”, explica Inês Ribeiro.
O que vai diferenciar o Matéria 47 de outros espaços? Inês Ribeiro e Joana Fernandes respondem: “vamos ser nós próprias e vamos dar continuidade ao trabalho pessoal”. Além disso, vão procurar chegar ao público através das formações pois “há sempre muita coisa em cima da mesa”. Segundo Inês Ribeiro, pretende-se dentro da área da cerâmica chegar a um outro nível.