31 de janeiro de 2020

Em ano de eleições

O congresso que entronizou José Manuel Bolieiro na liderança dos sociais-democratas açorianos, serviu como ponto de partida para os desafios eleitorais que o futuro trará. Um partido que tem vindo a cilindrar líderes desde 1996, acredita ter agora encontrado alguém que, depois de substituir Berta Cabral na autarquia de Ponta Delgada, corre atrás dos seus passos. Também a antiga responsável do município saiu da edilidade para se candidatar a deputada e, granjeado uma maioria, assumir o cargo de presidente do governo regional. Em 2012 não aconteceu e a realidade, diga-se em abono da verdade, não afiança a possibilidade de uma alteração de poder. Não parece nada certo que tenhamos alternância democrática em outubro próximo. 
O PS mantém uma maioria absoluta estável de deputados no hemiciclo regional. Ainda assim, não se tem feito rogado no acolhimento de propostas e contributos de outros partidos. De cabeça, recordo-me que o orçamento deste ano contempla sugestões do CDS e do PCP. Parece-me evidente que, tendo maioria absoluta, a negociação parlamentar poderia ser colocada em segundo plano pela bancada e pelo governo socialistas. Admito até que, atendendo ao longo tempo em que se encontram em funções, os socialistas poderiam cair na tentação de impor a sua maioria sem olhar às restantes bancadas e às suas propostas, mesmo que fossem positivas para os açorianos. Foram humildes na negociação e, com essa postura construtiva, melhoraram o documento final. 
É neste quadro que Bolieiro chega à liderança dos sociais-democratas. A generalidade das pessoas tem votado no PS porque considera que aquilo que este partido faz, é melhor do que as ideias e proposições dos outros. Não é uma opinião, é um facto trazido pelos resultados eleitorais das regionais e da generalidade dos escrutínios. E mesmo quando, no passado, os açorianos deram a vitória aos sociais-democratas – nas legislativas nacionais de 2011, por exemplo – logo alteraram o seu sentido de voto, reforçando nova maioria absoluta dos socialistas em 2012. E por muito que Bolieiro acredite que a «diferença» o vai levar à vitória, será necessário muito mais do que retórica para essa alternância democrática se concretizar. 
Serão necessárias políticas, caras e propostas novas. Políticas que levem o eleitorado a alterar o seu sentido de voto. Aqui começa a primeira dificuldade, já que o que tem sido feito tem sido amplamente referendado pelos açorianos com o renovar da confiança. Em relação às caras, a dificuldade parece ser, igualmente, grande. Os nomes conhecidos dos novos órgãos eleitos na Madalena trazem poucas novidades, revelando algum calculismo na escolha de antigos quadros e alguns desafiantes, soando a uma distribuição de interesses com vista a manter a estabilidade de uma direção que ainda agora foi eleita. Propostas com fulgor são necessárias – não há bom governo sem boa oposição – mas por enquanto, nem a moção global nem as moções setoriais apresentadas ao congresso, trazem novidades. 
Tal como Bolieiro, outros antes dele julgaram que uma boa dose de retórica embrulhada em similar quinhão de oratória, seriam suficientes. Não foram, e o edil deveria saber disso. Não começa bem e, já dizia a minha avó, «o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita». Por este andar, chegará demasiado tarde. 

 

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Categorias: Opinião

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