31 de janeiro de 2020

Chá da Cesta - 14

As viagens e a aclimatação do chá no Império Português

Deve-se entender o espaço Imperial Português (a exemplo dos demais), à luz da nova historiografia: rede formal e informal (nem sempre conforme o centro formal) adaptável, interagindo com redes locais e Imperiais europeias.1 O caso de Macau, área de Macau, mercê da relação entre os locais e o interior da China e o espaço Imperial Português, terá tido uma agenda própria do chá. 
Maria de Jesus Lopes garante ter havido a intenção de aclimatar o chá no Brasil, na segunda metade do século XVII. A autora refere mesmo o plano de Duarte Ribeiro de Macedo (Lisboa, 1618 - Alicante, 1680), que terá ocorrido na segunda metade do século XVII.2 Talvez o tenha gizado por volta de 1675, certamente antes de 1680.3 Assim sendo, o plano de Duarte de Macedo, para o Brasil, terá precedido o do Alemão Andreas Clayer, para Java, em 16854 ou em 1684.5 Diz Maria de Jesus Lopes que “(…) existiu mesmo um projecto de introdução das culturas da canela, cravo, noz-moscada, pimenta, chá, gengibre e anil no Maranhão, influenciado pelas ideias mercantilistas de Duarte Ribeiro de Macedo.6 Porém, desconhece-se se a intenção foi ou não concretizada.7
É ainda a mesma autora que, reportando-se aos séculos XVI, XVII e XVIII, nos garante que “(…) para o Brasil, a Índia exportava têxteis, louça de barro, chá, pedras preciosas.”8 Esta mesma Historiadora assevera que “a transplantação de plantas da Ásia para outras regiões do Ultramar e do Reino, com intuitos económicos, suscitou um certo interesse pela sua descrição, fases de cultura, qualidades e propriedades medicinais. Também como já vinha acontecendo, eram remetidas drogas, plantas medicinais do Reino para Goa, sobretudo para a Farmácia do Hospital Real.”9
Terão sido muitos os que tentaram aclimatar o chá na Europa, porém, deles não temos notícia. Um dos conhecidos é Carlos Lineu: “(…) O Capitão da Companhia Sueca da Índia Oriental, Carl Gustav Ekeberg [amigo de Lineu] (…) em 1762, transportou da China alguns chazeiros para Lineu, tendo sido, em 1763, a primeira vez que plantas-de-chá chegaram à Europa. No Verão de 1765 floresceram.”10 Não passou disso, pois, a sua intenção de o cultivar e fabricar, fracassou redundantemente.11 É curioso que, em 2017, há 300 plantas de chá, das 500 plantadas em 2016, a crescer na Ilha sueca de Gotland, na costa leste da Suécia, segundo informação do seu proprietário, o agrónomo Mikael Hassellind.12 Em Inglaterra, à volta do ano de 1772, quando escreve John Coakley Lettson, havia chá em “jardins dos subúrbios de Londres (…).”13 Não foi muito longe esse cultivo. Porém, hoje em dia, produz-se na Grã-Bretanha algum chá e ensaia-se o seu cultivo no País de Gales.14 Na ilha Terceira, nos Açores, em finais do século XVIII, o chá crescia espontaneamente. Hoje produz-se chá em S. Miguel e não naquela Ilha.

Na segunda metade do século XVIII, Domingos Vandelli (Pádua, 8 de Julho de 1735  - Lisboa, 27 de Junho de 1816), seguia a mesma linha de pensamento de Duarte de Macedo. Pensava que, se o chá se dava em Inglaterra, conforme John Coakley Lettsom, 15 melhor se daria no Brasil. Assim, “muito antes das viagens filosóficas [últimas duas décadas do século XVIII],16 o naturalista Domenico Vandelli também elegera o Brasil como terra prometida, verdadeiro tesouro natural do Império (…).” Pelo que, “(…) Em terras americanas seriam cultivadas espécies de todas as partes do planeta (…) anil, arroz, tabaco e mesmo os chás chineses estariam entre as lavouras que floresceriam no verdadeiro paraíso terreal (…).”17 Provavelmente, para apoiar a concretizar aquele desígnio, surge o estudo do discípulo e sucessor de Vandelli, Félix Avelar Brotero, baseado, naturalmente, numa pesquisa anterior mas publicado apenas em 1788.18 O capítulo em que se trata do chá é a tradução de um trabalho Inglês de 1772. Nele, além dos dados sobre a cultura e fabrico do chá, sobretudo no Japão, são avançados dados úteis para o bom transporte de plantas e sementes dessa planta. Há uma mensagem recorrente: se outras espécies foram adaptadas (magnólia, batata da terra), o chá também o poderia ser. E seria aproveitado para o comércio. Também se percebe a publicação, em 1805, de outra obra que ensina a transportar plantas e sementes.19 Veloso, um franciscano natural de Minas Gerais, tendo como referencial Domingos Vandelli, organizou expedições botânicas no Brasil.20
Deste modo se compreende “o estabelecimento em Goa do Jardim Botânico, nos últimos anos do século XVIII (…),” que tinha como objectivo “(…) cuidar da cultura das mais interessantes plantas da Índia, China e suas Ilhas Adjacentes (…),” da mesma forma como se procedera no Continente e noutras partes do Ultramar.21 Nem tudo, porém, correra como planeado, já que “em 18 de Abril de 1802, o vice-rei informava o secretário de Estado que o Jardim Botânico se encontrava arruinado muito antes da sua tomada de posse.”22
Pelo que foi exposto, é provável que tenham ocorrido, em território Brasileiro, tentativas anteriores à de D. João VI, no início do século XIX, pois 

“à época da criação da rede luso-brasileira de hortos, em 1796, o plantio do chá era recomendado por D. Rodrigo de Souza Coutinho, o todo-poderoso conde de Linhares, ministro da Guerra e Negócios Estrangeiros, que esperava propagar a cultura no Brasil ‘quiçá a ponto de suprir todo o mercado europeu, que recebia de muito mais longe o seu fornecimento’ como escreveu o Padre Perereca, cronista da época. Para o plantio no horto carioca foi reservada uma grande área e não se economizaram esforços para o sucesso da empreitada.”23 De facto, “além de Brotero, outros homens de ciência colaboraram com o ministro na tarefa de aclimatação de plantas asiáticas no Brasil. Tal foi o caso de Correia da Serra, que, de Londres, em 1797, enviou cameleiras a D. Rodrigo [de Sousa Coutinho] […]. E no ano seguinte um navio transportava da Inglaterra ‘uma bem formosa e preciosa colecção de plantas, raízes e sementes úteis para Portugal’, entre as quais vinte cameleiras, cinquenta canforeiras e cem árvores de chá” (145) 

Em 1802, decorrido um ano do envio de plantas de chá dos Açores para o Reino, são enviadas sementes e estacas de todos os pontos do reino e colónias, incluindo os Açores, para o Jardim Botânico de Goa. Pretendia-se que aquele jardim botânico, criado pelo Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, viesse a ser um local de experiências botânicas. No caso de sucesso, novas espécies seriam introduzidos noutros pontos do Império: no Brasil ou noutros domínios do reino. São novamente enviadas, um ou dois anos depois de 1803, sementes e estacas de todo o reino, para o Jardim Botânico de Goa. Em carta de 1805, quer-se que se dê atenção “às plantas económicas e medicinais exóticas.”24 O esforço era acompanhado por literatura temática: “(…) Com esta literatura pretendia-se difundir os saberes e técnicas agrícolas seguidos pelas nações cultas e civilizadas e ampliar os conhecimentos dos agricultores-lavradores do reino e das colónias, do Brasil ao Oriente, de acordo com os princípios científicos e técnicos preconizados pela filosofia natural. O objectivo era levar a economia portuguesa ao nível de desenvolvimento obtido por outras nações vizinhas e rivais (p. 145) (…).”25 Para obter bons resultados, “o príncipe ordenava que se contratassem jardineiros hábeis – que de facto seriam, com todas as probabilidades, botânicos talentosos a serviço do Jardim do Rei de França e elos da rede de informação (…).”26

Entre Estufas, Fajã de Baixo, 25 de Janeiro de 2020


1  Hespanha, António Manuel, Filhos da Terra: identidades mestiças nos confins da expansão Portuguesa, Tinta da China, Lisboa, 2019, pp. 21-27.
2  Lopes, Maria de Jesus dos Mártires, Goa Setecentista: Tradição e Modernidade (1750-1800), 2.ª edição, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 1999, p. 286.
3  Cf. wikipedia.org/wiki/Duarte_Ribeiro_de_Macedo “(…) Sob a influência das doutrinas e políticas de Colbert, ministro de Luís XIV de França, Macedo defendeu nomeadamente a introdução de manufacturas em Portugal. São famosos os seus “discursos” sobre Economia Política, entre os quais o Discurso sobre a introdução das Artes no Reino, redigido em Paris em 1675 e publicado pela primeira vez no O Investigador Portuguez em Inglaterra (1813).” 
4  Idem.
5 Deuss, Ob. Cit, p. 229.
6 Idem.
7  Lopes, Ob Cit, 1999, p. 286.
8  Lopes, Ob Cit, 1999, p.64.
9  Idem, p.285.
10  Liberato, Maria Cândida, Ob. Cit., 2012, p. 92.
11  http://www.ucmp.berkeley.edu/history/linnaeus.html
12  https://sverigesradio.se/sida/artikel.aspx?programid=2054&artikel=6756848
13 Lettsom, John Coakley (1744-1815), The Natural History of the Tea Tree (…), 1772, Tradução de Brotero, Felix Avellar (1744-1828), in Compendio de Botanica ou noçoens elementares desta sciencia segundo os melhores escritores modernos expostas na lingua portugueza, Paris: Paulo Martin, 1788, Tomo Primeiro, pp. 415-418. 
14  https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2013/nov/23/british-tea-producer-tregothnan: Em Tregothnans, a experiência começou em 1999 e a primeira produção data de 2005.
15 Lettsom, John Coakley (1744-1815), Ob. Cit., 1788, Tomo Primeiro, pp. 415-418. 
16 Cf. wikipedia. org/wiki/Expedições_filosóficas_portuguesas.
17 Raminelli, Ob. Cit., 2008, p. 272.
18 Brotero, Felix Avellar (1744-1828), Ob. Cit, 1788, Tomo Primeiro, pp. 362-427. 
19 Veloso, José Mariano da Conceição, Instruções para o transporte por mar de árvores, plantas vivas, sementes, e de outras diversas curiosidades naturais, Lisboa, Impressão Régia, 1805.
20 Pataca, Ermelinda Moutinho, Coleta, transporte e aclimatação de plantas no Impéruo Luso-Brasileiro (1777-1822), in Museologia&interdiscuplinaridade, 2016
21 Lopes, Ob. Cit, 1999, p. 287.
22 Idem.
23 Nepomuceno, Rosa, O Jardim de D. João, Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2.ª edição, 2008, p.120. 
24 Domingos, Ângela, Monarcas, Ministros e Cientistas. Mecanismos de Poder, governação e informação no Brasil Colonial, CHAM, Lisboa, 2012, p.144.
25 Idem
26 Idem, pp. 146.147.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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