As recentes declarações do Sr. Reitor, aquando da comemoração do aniversário da UAC, são efetivamente preocupantes, mas em meu entender não pelo que foi dito, mas pelas intenções que ocultam. João Luis Gaspar nunca gostou da tripolaridade da Universidade dos Açores (UAC). Isso já sabemos. Rapidamente, em conjunto com Mario Fortuna, tratou de fechar o curso de gestão na Terceira, numa altura em que o efeito da saída dos americanos da base das Lajes já se fazia sentir de forma muito efetiva, e quando a formação de quadros era muito importante para dinamização da economia da Ilha. Não mostrou, em conjunto com Mario Fortuna, qualquer abertura ou intenção em resolver os eventuais problemas, puramente administrativos, que o curso poderia ter, e que eram perfeitamente ultrapassáveis. Abriu o curso de ciências do mar em Ponta Delgada e não na Horta, como seria de esperar, etc. Tudo sempre sobre a retórica da questão financeira. Mas vamos a alguns factos que a população desconhece e que são relevantes. A UAC recebe, do Estado Português, aproximadamente 6.000 euros por aluno, enquanto que todas as outras universidades do país recebem 4.000. Incluindo a da Madeira. Sim, já sei dos custos da tripolaridade. No Air Centre da Terceira estão 10 professores estrangeiros, com projetos que podem trazer aproximadamente 1 milhão de euros para a Universidade (já “tapava” os famosos 700mil e restava algum), no entanto o Sr. Reitor recusa-se a trabalhar com estes docentes. Não quero acreditar que seja pelo facto de estarem na Ilha Terceira e não em Ponta Delgada. A Universidade ainda não concluiu o seu registo na plataforma que lhe permite aceder a financiamento através de projetos em ambiente empresarial. A candidatura está aberta, mas não submetida. No entanto numa coisa o Sr Reitor é muito bom, a pedir dinheiro e a ameaçar a Unidade Regional. Na verdade é apenas mais um. Diria que absorveu o espírito do rendimento mínimo que grassa na Região: pedir sem trabalhar. A filosofia da mão estendida. As diretivas da União Europeia, para apoio á investigação nas Universidades, e de onde deve vir uma boa parte do seu financiamento, são muito claras. Os projetos têm que ter aplicação empresarial. Para isso é necessário trabalhar… daí que as suas declarações não tenham tido grande eco em Lisboa. Primeiro temos que provar que somos capazes, depois pedimos mais dinheiro. Não é isso que a UAC e o seu Reitor têm feito. O Sr. Ministro sabe isso muito bem. O Governo Regional sabe isso muito bem.A vitimização, de que tanto o nosso povo gosta, colhe frutos junto dos menos informados e no pouco informado “mercado” local. Também ele altamente centralista. A gestão atual das Universidades nada tem a ver com os padrões de outros tempos, nem com a filosofia do “rendimento mínimo garantido”. O ano passado tive a oportunidade de assistir, no NONAGON,em resposta a um amável convite do Dr. Arnaldo Machado, a uma excelente palestra, exatamente sobre este tema. Gerir, no abstrato, é muito mais que gerir dinheiro, é gerir pessoas e expectativas. Também aqui, dentro da Universidade e do seu difícil corpo docente, são muito conhecidas as dificuldades do Sr. Reitor. Gerir já não é mandar, é mobilizar, é dinamizar. A prepotência não tem lugar. Se a UAC está com problemas financeiros é porque o seu Reitor teima em não ver a nova realidade, Regional, Nacional e Internacional em que as Universidades, e como tal a UAC, estão inseridas. Não é, de certeza, por causa do financiamento estatal. Este faz mais pela UAC do que pelas outras Universidades do país. Insistimos em ser tratados como “os coitadinhos” dos Açores. Usar esse argumento para ameaçar acabar com a tripolaridade é manifesta má fé. É atirar mais uma acha para a, já bem acesa, fogueira do fim da Unidade Regional e como tal da Autonomia. Sacudir a água do capote é sempre mais fácil. Esperemos que o Sr. Reitor mude sua mentalidade e faça o que tem que fazer. Eu tenho projetos que podem ajudar a Universidade em alguns milhares de euros. Como eu imagino que outros empresários nos Açores. Basta o Sr. Reitor deixar de lado a sua agenda oculta e fazer a sua parte em prol da Região e da própria Universidade.
Uma última nota, que me parece da mais elementar justiça: nada do que foi dito anteriormente coloca em causa o magnífico e louvável trabalho de recuperação financeira da instituição que foi feito pelo presente Reitor. Falta o resto!