6 de novembro de 2019

Com os pés na terra (425)

A horta nas escolas

Horta como o lugar
onde crescem as
coisas que, no
momento próprio,
viram saladas,
refogados´, sopas e suflés.
Também isso. Mas não só.
Gosto dela, mesmo
que não tenha nada
para colher.
Ou melhor: há sempre
o que colher, só que
não para comer.
(Rubem Alves, em “O quarto 
do Mistério”) 


Durante algum tempo, e pensamos que ainda hoje, a agricultura, não incluo a pecuária, foi e continua a ser desvalorizada por quem acha(va) que aos Açores o que interessava era aumentar o sector terciário, pois era possível obter os alimentos do exterior a preço mais baixo do que os produzidos cá.
A Escola Secundária das Laranjeiras, bem como outras, que chegou a ter no currículo disciplinas que serviam para a formação dos futuros engenheiros agrónomos e afins, foi forçada, pela legislação nacional a que a Região não se opôs, a acabar com elas.
O ensino da agricultura não despareceu por completo, tendo ficado destinado a alunos fora do ensino chamado regular: com necessidades educativas especiais, dos cursos do PROFIJ e outros.
Nos últimos tempos, parece que a situação está a ser ligeiramente alterada, pelo menos em termos da criação de hortas escolares, infelizmente apenas para alunos problemáticos e ou não integrados nas turmas do ensino regular. Além disso, não se sabe se as escolas que já possuem hortas estão a tirar o máximo proveito da sua existência, isto é, desconhece-se se as hortas se destinam apenas a “entreter” as criancinhas ou adolescentes que não são capazes de estar 45 min numa sala de aula (por vezes também não fazem nada nas hortas) e se, para além da função de “guarda”, se limitam à produção de alimentos, não sendo usadas e trabalhadas em todo o processo pedagógico.
Dadas as potencialidades das hortas ou em terrenos adjacentes ou próximos daquelas, o maior número possível de escolas deveria ter como prioritário nos seus projetos educativos a sua criação e manutenção, ao invés de estarem agarradas a programas que na maioria das vezes não passam de mera cosmética, como o é o programa Ecoescolas (ou a sua concretização), tão acarinhado pelas nossas autarquias especialistas em “greenwashing” (“esverdeamento”, branqueamento ou encobrimento).
Através das hortas escolares há um sem número de atividades que podem ser implementadas não só pelos docentes das disciplinas que as usam como “sala de aula”, mas também por todos os outros. Não pretendendo esgotar o assunto, abaixo indica-se alguns exemplos de como a horta poderá ser usada com fins pedagógicos.
Para além dos alunos ficarem a conhecer as diversas plantas e as suas possíveis utilizações, na alimentação, na medicina tradicional, para fins ornamentais, etc., com os produtos recolhidos é possível tornar mais motivadora o ensino da culinária e da educação alimentar, podendo o uso daqueles incentivar o seu consumo por parte de crianças e adolescentes empenhados no seu cultivo.
As hortas escolares também devem ser utilizadas para o ensino de uma agricultura mais respeitadora do ambiente e para o ensino da gestão correta de resíduos, nomeadamente os orgânicos que deverão ser usados em primeiro lugar e sempre que possível na compostagem doméstica.
A questão das relações entre a cidade e o campo, o consumo de energia nos transportes de adubos e dos próprios produtos da terra, como hortaliças, frutas, etc. que são importados ou as alterações climáticas são temas que também não deverão ser esquecidos.
 

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Categorias: Opinião

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