5 de novembro de 2019

Sociedade que desumaniza

Como aqui já escrevi, as últimas eleições legislativas provocaram uma grande mudança no país, com a esquerda a reforçar a sua maioria e com um PSD com um grupo parlamentar desconhecido, criado por Rui Rio, figura que desvalorizou o papel da Região Autónoma dos Açores.
Estas mudanças terão várias consequências, a começar pela agenda fraturante do Bloco de Esquerda e do Livre que tudo farão para empurrar o PS à parede, pois têm o poder de impor as suas ideias grandemente esquerdizantes para o nosso país.
Vem isto a propósito do facto de líderes de várias religiões se terem juntado no Vaticano para rezar e falar sobre a eutanásia, em que no documento final do encontro se lê que a eutanásia e o suicídio assistido são “inerentemente, e por consequência moral e religiosamente errados e devem ser proibidos sem exceção”.
 Já o Papa Francisco se referira a este tema clarificando que “o suicídio assistido é uma derrota para todos. A resposta a que somos chamados é nunca abandonar aqueles que sofrem, não desistir, mas cuidar e amar para restaurar a esperança”, isto a propósito de Noa Pothoven, a jovem holandesa de dezassete anos que escolheu morrer assistida, por médicos especializados naquela área.
Sabemos que na Assembleia da República o chumbo sobre a eutanásia perdeu por uma unha negra, em que a oposição do PC e do CDS e de deputados do PSD, foram determinantes para o não aprovar uma medida fraturante e vil e como esta.
O Livre conhece bem a nova composição da Assembleia da República, em que apenas meia dúzia de deputados do PS são contra, no PSD poucos mais, e os que ferozmente se opõem estão no PCP e no CDS e estes são apenas 15, fazendo com que uma larga maioria seja a favor da eutanásia. Assim sendo, há votos suficientes não apenas para aprovar a eutanásia, mas também para ultrapassar um eventual veto presidencial. Foi por isso que o Livre já veio dizer que a eutanásia seria a sua primeira medida nesta legislatura.
Por isso, a opção será pedir um referendo, como a única alternativa à legalização da eutanásia, indo ao encontro daquilo que foi anunciado na última Caminhada pela Vida, ou seja uma Iniciativa popular de referendo, havendo, no entanto, a necessidade de ser acompanhada por 60 mil assinaturas para ser discutida em Plenário da Assembleia da República. 
A Vida é um direito sobre o qual a lei não pode dispor, mas infelizmente antes o BE e agora o Livre apresentarão as suas propostas para se aprovar uma lei que legaliza a morte de um doente quando este o pede, pelo que o referendo é um instrumento que pode vir a travar a lei.
É certo que o referendo tem riscos mas também é a única possibilidade de retirar o debate da Assembleia da República e trazê-lo para a rua. A única possibilidade de fazer uma campanha para esclarecer as consciências sobre o que é a morte a pedido e as suas consequências. É a grande possibilidade de se clarificar a verdade diante da mentira da “morte digna”.  
Aquando da discussão do projeto de lei do BE, representantes de várias correntes religiosas em Portugal assinaram um manifesto contra a eutanásia, em que “reafirmaram quea vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. 
Por outro lado, assumiram que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estão gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. 
Contudo, não ignoram o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. No entanto, a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. 
Não desistem daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente, sendo a vida humana é inviolável até à morte natural e em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, sentem-se chamados a intervir manifestando a oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia”.
 
 

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Categorias: Opinião

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