9 de outubro de 2019

Com os pés na terra (420)

Ferreira Deusdado e os Educadores Portugueses

Manuel António Ferreira Deusdado (1857-1918), natural de Rio Frio, Bragança, teve uma vida dedicada ao ensino, tendo, depois concluído o Curso Superior de Letras, em 1881, sido professor liceal e lente auxiliar do Curso Superior de Letras.
A sua carreira científica foi reconhecida no estrangeiro, tendo sido alvo de várias homenagens, de que se destaca a atribuição do grau de doutor honoris causa pela Universidade Católica de Lovaina, em Filosofia e Letras.
Da vasta bibliografia de Ferreira Deusdado, destaca-se “Bosquejo Histórico de Puericultura. Educadores Portugueses”, um livro de consulta obrigatória para quem quiser conhecer a História da Educação em Portugal.
Há alguma razão para a escrita de um texto sobre Ferreira Deusdado para um jornal dos Açores?
Antes de responder à questão, esclareço que a primeira vez que ouvi falar em Ferreira Deusdado foi num livro sobre o terceirense Adriano Botelho, publicado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais.
No livro referido, o grande cientista Aurélio Quintanilha, numa carta de 3 de dezembro de 1980, dirigida a Adriano Botelho, recordou-lhe alguns episódios da sua juventude. Assim, depois de referir que Ferreira Deusdado quando se referia à imperatriz da Rússia “dizia sempre – a minha amiga a imperatriz da Rússia… Mas nós, os miúdos, já estávamos convencidos que a imperatriz se estava nas tintas para esse grande pavão e à socapa fazíamos troça dele”. 
Aurélio Quintanilha e Adriano Botelho foram alunos do Liceu de Angra e Ferreira Deusdado professor no mesmo, tendo tomado posse a 10 de junho de 1901.
Como ninguém é capaz de agradar simultaneamente a gregos e a troianos, alguns alunos detestavam-no e a ele dedicaram uma quadra que segundo Aurélio Quintanilha era assim: “Dado a Deus por ser casmurro, cá na terra um rifado, lá no céu um alugado, porque Deus não quer um burro!”.
Vitorino Nemésio, por seu turno, conta que correu um boato sobre a transferência de Ferreira Deusdado para o Liceu de Ponta Delgada e que alunos e professores do Liceu de Angra do Heroísmo manifestaram o seu descontentamento e repudiaram a ideia.
No livro referido, Ferreira Deusdado apresenta algumas notas biográficas de educadores que viveram do século XII ao século XIX. 
No que diz respeito ao século XIX, Ferreira Deusdado faz referência a cinco educadores açorianos: Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, natural de Angra do Heroísmo, João José da Graça, natural da Horta, Manuel Francisco de Medeiros Botelho, natural de Água Retorta, Teófilo Ferreira, natural da ilha das Flores, e Antero de Quental, natural de Ponta Delgada.
De todos os citados, o menos conhecido, pelo menos para mim, é Manuel Francisco de Medeiros Botelho, pelo que termino este texto com a menção ao seu contributo para a educação. 
Em 1871, Manuel Medeiros Botelho escreveu um Projeto de Reforma Geral de Instrução Primária e Secundária e no ano seguinte publicou o livro intitulado “O que é e o que deve ser a instrução nacional”.
Para além do mencionado, Manuel Medeiros Botelho foi autor de um compêndio de Geografia que foi usado em várias escolas.
De acordo com o pedagogo Adolfo Lima, Manuel Medeiros Botelho “era partidário do ensino obrigatório, da sua gratuitidade e da sua descentralização. Quanto à liberdade do ensino admitia-a, somente para a instrução superior”.
 

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Categorias: Opinião

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