15 de março de 2019

Crónica da Madeira

Carnaval da Madeira: Um fenómeno de ordem Sociológica

Passaram 40 anos do dia em que decidi trazer para a rua o Carnaval da Madeira. Isto é: a nova versão do Carnaval, em moldes para torná-lo num cartaz internacional. Não foi fácil mas, apoiado por amigos que logo entenderam os meus objectivos, concretizou-se o sonho.     Muitos anos antes desta nova versão, o Carnaval na Madeira era vivido de forma diferente: uma autêntica “batalha” entre pessoas com ovos, tomates e sacos de farinha.
    Tudo se passava na Rua da Carreira. Apesar de ser criança, este Carnaval nunca me entusiasmou, achava-o selvático e agressivo. Eram certamente outros tempos, contudo considerava-o muito pouco imaginativo. Jamais pensei que um dia seria o autor da sua mudança. Depois desse Carnaval, que morreu naturalmente como “batalha”, os madeirenses não deixaram de festejar esta época: organizavam-se em grupos, disfarçavam-se e faziam assaltos a casas de pessoas amigas, onde se divertiam até altas horas da madrugada. Alguns grupos levavam as malassadas, sonhos e o respetivo mel de cana, doces típicos do Carnaval. Nas diferentes instituições, tais como: Estudantes Pobres, Bombeiros Voluntários Madeirenses e, ainda, nas sedes das Bandas “Artistas” e “Guerrilhas”, realizavam-se bailes com disfarce, bem como no “Solar da D. Mécia”. Daqui passou-se à organização de grupos, com muita imaginação, com disfarces mais ricos, animavam o Carnaval, nas unidades hoteleiras, com grande êxito. É a partir daqui, conhecendo bem os meandros do Carnaval e amigo dos leaders dos grupos, ao despedir-me das minhas funções de director de Relações Públicas do Hotel Sheraton, fui chamado para o governo, como director dos Serviços de Animação, prometi, que no ano seguinte, o Carnaval estaria na rua. Desta maneira, seria dado a todos os madeirenses a oportunidade de admirarem a criatividade e a beleza das trupes que se exibiam nos salões dos hotéis. O Carnaval era então um espectáculo para alguns privilegiados. O que eu pretendia é que fosse para o maior número possível de beneficiados. Assim aconteceu. Em 1979, o Carnaval estava na rua e mais 50 mil madeirenses assistiram a essa parada inesquecível que marcou uma nova etapa do Carnaval madeirense, sendo hoje um dos grandes cartazes do turismo.
    Mas este evento tinha objetivos bem definidos: não era só a diversão, era também tornar menos ilha a ilha que eram os madeirenses; criar bases para que se partisse para mais iniciativas, incentivar o espírito de equipa tão necessário para levarmos a efeito outros eventos e, ainda, um outro objetivo: extroverter muitos dos jovens atados a tantos preconceitos. Os meus colaboradores sabiam que o Carnaval do Funchal iria ter o condão de despoletar o interesse dos diferentes Concelhos em realizarem também os seus Carnavais. Sucedeu. Hoje festeja-se o Carnaval por toda a Região. Conseguimos, depois, com os mesmos grupos, organizar a Festa da Flor, a Festa do Vinho, o Encontro de Bandas, e tantos outros acontecimentos. Assim se fez o calendário turístico da Madeira. 
    Nos três primeiros anos do desfile, criticavam a atitude passiva do público, que não reagia, que não se divertia. Eu lutava contra essas críticas que, ao fim ao cabo, me eram dirigidas. Respondia-lhes que não era fácil uma população habituada a ver passar as procissões mudar tão rapidamente para o “samba”. Estava seguro de que se o público enchia as ruas da cidade era porque gostava do Carnaval e esse iria, certamente reagir. Assim, sem necessitar de se embebedar, como acontece em outras cidades, tudo se sucedeu no seu devido tempo: com disfarces, apitos, chapéus e fantasias, os madeirenses e turistas assistem hoje ao desfile, divertem-se “à grande” e tecem rasgados elogios aos grupos. 
    Um dia, levei um Sociólogo a visitar as trupes nas casas onde trabalhavam. Ali estavam os avós, os pais, os filhos, os parentes, pintando sapatos, cozendo saias, fazendo chapéus, colando plumas. Surpreendido e encantado com o que via, ele olhou-me e disse: “afinal vocês quebraram a barreira das idades, juntaram no mesmo projeto avós, pais e filhos. Criaram um fenómeno de ordem Sociológica”. 
    Uma das questões que sempre fiz ponto de honra era não admitir que viesse quem quer que fosse de fora para orientar os grupos. Defendi sempre que os madeirenses eram capazes e, com o tempo, teriam mais imaginação e criatividade. Resultou. Passados estes 40 anos, presto a minha homenagem aos colaboradores que me acompanharam nesta grande “viagem”, os da Secretaria do Turismo e aos dirigentes das trupes. A todos eles fica-se a dever o êxito deste cartaz internacional. 

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Categorias: Opinião

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