14 de março de 2019

A Arqueologia dos Açores e a Universidade

Os caminhos da Arqueologia dos Açores (como aliás os caminhos da Arqueologia em todo o país) têm sido tortuosos e árduos. É natural! Os Açores são um território “periférico”; há poucos arqueólogos a trabalhar neste arquipélago (logo a massa crítica é mais circunscrita); o acesso público a bens arqueológicos (imóveis, monumentos e móveis, em museu) é limitado; ainda é escassa a informação e sensibilidade na generalidade dos organismos públicos para as problemáticas arqueológicas, etc.
Mas têm sido muitos e muito relevantes os sucessos recentes da Arqueologia Açoriana. Em primeiro lugar, na Arqueologia Subaquática, em que os Açores assumem a vanguarda da investigação a nível nacional e mesmo internacional. Veja-se a criação do Roteiro do Património Cultural Subaquático dos Açores pela Direcção Regional de Cultura em 2017; o primeiro doutoramento português em Arqueologia Subaquática, defendido por José António Bettencourt, com o tema Os naufrágios da baía de Angra (ilha Terceira, Açores): uma aproximação arqueológica aos navios ibéricos e ao porto de Angra nos séculos XVI e XVII, em 2018; e a recente selecção pelo júri nacional da candidatura do Património Cultural Subaquático dos Açores para Marca do Património Europeu em 2019.
Mas também em ambiente terrestre as notícias são boas, como bem ilustram a revisão do Regime Jurídico da Gestão do Património Arqueológico (Decreto Legislativo Regional n.º 6/2018/A); a publicação do livro Arqueologia nos Açores – Uma Breve História, de José Luís Neto; e a contratação do primeiro arqueólogo municipal nos Açores (Diogo Teixeira Dias), pela Câmara Municipal de Vila Franca do Campo; tudo isto em 2018.
Mas a verdade é que a Arqueologia açoriana tem sofrido também rudes golpes (sem querer voltar às lamentáveis declarações de um deputado regional sobre Arqueologia urbana em Angra do Heroísmo…), de entre os quais se destacam as recorrentes, muito noticiadas e muito apreciadas descobertas dos chamados “vestígios arqueológicos pré-portugueses”. E tem havido de tudo: achados pré-históricos (das várias idades da Pré-História) e proto-históricos, arte rupestre, monumentos megalíticos, hipogeus fenícios, etc. (estou, seguramente, a esquecer-me de alguns …).
Sucede porém que, de forma totalmente inequívoca, tem sido demonstrado que essas putativas descobertas não têm qualquer fundamento científico. Ou seja, são falsa ciência, opinião sem prova, projecção, fortes desejos individuais, especulação desprovida de sentido e muita, mesmo muita demagogia científica-arqueológica (reveja-se e releia-se o Parecer Final sobre as ocorrências patrimoniais da Terceira e do Corvo, de 2013, elaborado pela Comissão Científica - integrada por diversos e insignes académicos da Universidade dos Açores -, constituída para o efeito pelo Governo Regional). Sejamos claros, é possível (sendo que o grau de probabilidade desta possibilidade é matéria de análise científica por historiadores e especialistas em arquitetura naval e história da navegação) que os Açores tenham tido ocupação (ou frequência) humana (pontual, acidental ou deliberada) antes do século XV. Contudo, até hoje, não foram encontradas, de forma comprovada e fundamentada cientificamente, evidências históricas ou arqueológicas de presença humana anterior ao século XV nos Açores.
Por isso, a difusão e amplificação pública destas falsas descobertas são muito prejudiciais para a Arqueologia dos Açores. Porque lançam uma nuvem de fumo tóxico junto da opinião pública, que torna a História numa matéria difusa, ou pior, em matéria de mera opinião pessoal e até de fé. Assim, a imagem da Arqueologia açoriana é permanentemente perturbada e confundida com estas mensagens falaciosas, baralhando e desinformando a sociedade sobre a sua própria História. Gostaria muito de perceber por que razão(ões) existe, entre muitos açorianos, este forte anseio, desejo, apetência, pela descoberta de “um passado mais longínquo”. Penso, aliás, que este é um interessantíssimo tema de estudo para a antropologia e para a sociologia da cultura, que eventualmente remete para problemáticas identitárias que necessariamente procuram fundamento para a sua pertinência na História e no Património Cultural. Talvez um dia esta matéria seja estudada.
E porque razão agora (quando esta realidade não é nova), eu, que não trabalho nos Açores, nem sou especialista em nenhuma das matérias da Arqueologia açoriana (ou da pseudo-arqueologia açoriana) decido assumir uma posição pública sobre este assunto? Porque no momento presente esta falsa ciência estará, eventualmente e de alguma forma, a ser validada pela Universidade dos Açores (para desgosto, bem sei, de muitos professores e investigadores da instituição). Refiro-me à Mesa Património Arqueologico e Antropologia (sic) integrada no XXIV Congresso Internacional de Antropologia de Ibero-América (sic), a decorrer em Ponta Delgada, com o apoio da Universidade dos Açores e com uma Comissão Científica que integra membros da mesma Universidade.Quero eu produzir contraditório a estas versões da História? Não, em primeiro lugar e principalmente porque sou arqueóloga e o debate entre arqueólogos é científico e não para-científico; em segundo lugar porque, como disse, não sou especialista, nem faço investigação sobre contextos arqueológicos açorianos… o que não me incapacita para distinguir entre discursos científicos e não-científicos.
O ponto é: nós vivemos numa sociedade aberta e livre; logo, todos são livres de exprimir as suas opiniões, teorias e gostos (nos espaços privado e público, na comunicação social, nas redes sociais, etc.); mais faltaria que assim não fosse! As fake news em matéria científica são graves (recordo, a título de exemplo, os negacionistas das causas do aquecimento global; ou os apologistas da não-vacinação das crianças), mas não são proibidas. O que me parece ilegítimo é a validação académica e universitária de discursos não-científicos. Porquê? Porque as universidades são o templo do conhecimento científico. Não são o templo de todos os conhecimentos; são o templo do conhecimento científico! Se não forem as universidades a defender o conhecimento científico, neste complexo e por vezes louco mundo actual, então quem o fará? Legítimo  A, pelo menos aparente, inclusão de discursos não legitimados cientificamente num congresso científico apoiado e validado pela Universidade dos Açores (ou por qualquer outra universidade) é grave e inaceitável, porque assim começa a valer tudo. Pode ter sido um lapso, pois lapsos acontecem; mas lapsos assumem-se e corrigem-se, não se disfarçam.
 
                               Lisboa, 13 de Março de 2019

Jacinta Bugalhão
Arqueóloga

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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