14 de março de 2019

A Ciência e a Opinião

Parece que alguns congressos passaram a ser exclusivamente alibis de viagens, entre a Europa e a América do Sul, entre a América do Norte e a Ásia, entre África e Europa.
Em parte de algumas iniciativas, com divulgação em massa e apoios de peso, assistimos ao que tem, infelizmente, vindo a ser comum. Deixou de se fazer ciência.
Já não me refiro ao agrilhoamento dos investigadores, em situação precária, aos seus centros de investigação e às agendas políticas impostas a ambos, sob pena de perderem, respetivamente, a bolsa e os apoios que lhes permitem o pão na mesa – e as ditas viagens.
Aludo sim às instituições académicas, que se devem constituir, neste tempo de abundância e acessibilidade de informação, num crivo bem apertado à charlatanice. Às fakenews da ciência.
A ciência faz-se de uma forma muito simples de definir, mas complexa de processar. Sobretudo porque cada vez mais desaparecem os conceitos, em favor de um total relativismo de rigorosamente tudo.
A parte simples é a operacionalização teórica: o método experimental e submissão dos resultados aos pares.
A parte complexa é a sua aplicação prática. Porque nem tudo o que parece igual é o mesmo.
Significa que, por muito que um talhante recorra ao mesmo procedimento que o médico para proceder a uma cirurgia torácica, isso não o habilita a submeter os resultados da sua arte num Congresso de Saúde Cardíaca. Da mesma forma que o cirurgião, que vai às compras ao talho, não recomenda procedimentos de corte da alcatra da vaca ao açougueiro, sob argumento do tempo que passa no bloco operatório.
Em Ciências Sociais e Humanas não se tem dado muito valor a isto porque, regra geral, e felizmente, ninguém morre. Mas se à porta do bloco operatório estiver o senhor do talho em vez do cirurgião, para receber o paciente, é, e com razão, alarmante. Não obstante de o talhante até saber umas coisas de corte e, como dizem muitos por aí, “tem direito à sua opinião”. Esta preocupação e entendimento tem de ser geral em todas as áreas do saber. Não há ciências de primeira e ciências de segunda.
Produzir opiniões e produzir ciência são duas aceções distintas. Produzir ciência é um processo. Moroso. Com dissabores. No processo científico, a falha é útil. A falha que os próprios investigadores admitem e as que os outros, seus pares, construtivamente ou destrutivamente, lhes apontam.
Antes de fazer uma lâmpada que funcionasse, Edison fez milhares que nunca deram luz. Literalmente e figurativamente.
É como aquela fotografia que vai para as redes sociais, que é a escolha final de umas centenas. Isso também acontece em ciência. Chama-se experiência.
Mas para que isso aconteça naturalmente e saudavelmente, e em defesa do futuro, são precisas duas coisas. Dois crivos. E que devem ser apertados.
O primeiro é o que os conselhos editoriais das revistas científicas e as comissões científicas dos congressos fazem – ou deviam fazer - às propostas, de publicação ou comunicação, respetivamente.
Em teoria, estes órgãos recebem as propostas e, de acordo com o que leem no resumo e o que observam nos currículos, entendem ou não incluir essa proposta no produto científico final: o congresso ou a publicação. Ou então não fazem nada disso. Mas o nome lá vai para o cartaz e o certificado para a carreira. É como a moeda fiduciária. Vale pela confiança e não pelo concreto.
No mesmo nível, estão as instituições, associações e institutos que têm a obrigação de tomar posições públicas claras e vincadamente em defesa da ciência, por oposição aos perigosos sensacionalismos e sedes de protagonismo.
O segundo é o dos pares que, durante ou após o congresso, ou após a publicação, reforçam ou refutam, recorrendo ao mesmo método científico, o que foi apresentado.
A Ciência não é uma democracia. A Ciência é para cientistas. Se qualquer um pode ser cientista? Sim. Mas isso já é outro debate, que inclusive cabe ao Estado, que deve ser o garante de que os seus cidadãos e cidadãs são dotados condignamente das justas e ideais condições materiais, morais, éticas e sociais, para poderem todos aceder e percorrer esse caminho.
Mas o caminho deve ser percorrido.
A ciência não é uma democracia porque não se vale do número de vontades. Vale-se de factos, das hipóteses formuladas a partir deles e das conclusões. Tudo o resto é admissível em “conversas de café”. Não em congressos ou em revistas científicas. Dessa necessidade de distinção, e não das viagens e do currículo fictício, se justifica a existência dos tais conselhos editoriais e científicos.
O especialista em imunologia não tem de colocar o seu conhecimento científico ao nível das opiniões acerca da vacinação com quem discorda da sua obrigatoriedade. Da mesma forma que a opinião relativa a esse assunto, embora legítima, considerando os direitos constitucionais, não pode ser tida e colocada ao mesmo nível que o conhecimento científico. Porque a própria liberdade democrática depende dessa mesma diferenciação.
Algumas instituições académicas estão a falhar redondamente no seu dever, visto que manifestamente se permeabilizam, por um qualquer motivo, que está à margem do meu entendimento, à falta de probidade científica.
E isso é tão preocupante para a sociedade como o rombo no casco de um navio para os tripulantes.
Sim, as universidades, institutos e associações académicas devem tomar posições públicas sobre estas matérias e não só. Principalmente em ambiente de liberdade, devem constituir-se como os elementos nucleares na distinção entre o que é Ciência e o que é Opinião. Ambas são fundamentais, desde que inseridas no seu enquadramento e contexto.
Porque se não é sua responsabilidade, é de quem? Para que servem afinal? Para garantir gestão de equipamentos e cedência de palco à pouca honradez? Para cobrar propinas e quotas? Para beneficiar de apoios públicos e privados? Para quê, afinal?
As instituições da ciência e para a ciência, se não pensarem, servem para pouco. Se forem apáticas, também. Então, se não ensinarem a pensar, não servem para rigorosamente nada.

 

Teixeira Dias
djteixeiradias@gmail

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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