14 de março de 2019

À conversa com a (verdadeira) esquerda

Abaixo poderá ler um excerto de uma conversa (imaginária) entre uma jornalista do jornal Transparência, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Quaisquer semelhanças com a realidade são certamente fortuitas e inadvertidas. Este é um texto de sátira política, evidentemente.  

Jornalista (J): Catarina Martins (CM), a Sra. parece dizer uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo. Critica veementemente a postura do governo mas diz que o seu partido não exclui a possibilidade de uma segunda geringonça, com o BE a assumir responsabilidades na governação do país. Como pode a Sra. fazer parte de um governo liderado por um partido que critica tão duramente?
CM: Eu não afirmo uma coisa e o seu contrário. Criticamos este deplorável governo mas estamos prontas para assumir as nossas responsabilidades cívicas ao lado de António Costa.
J: Mas… não acha que esta postura é contraditória?
CM: Contraditória? Não!  Devemos ser intelectualmente honestas. Uma coisa é a actuação escabrosa deste governo e outra, mui distinta, é a nossa vontade irreprimível de participar num governo liderado pelo PM Costa. Acho que podemos dar um grande contributo à modernização da hipocrisia lusitana.  
J: Mas????
CM: Desculpe, são coisas distintas, não as confunda, por favor.
J: Mas!?… Já regressaremos a este assunto. Jerónimo de Sousa, e quanto ao PCP? Está disponível para participar num governo liderado pelo Partido Socialista, depois das duras críticas que tem feito?
Jerónimo Martins: Julgamos, temos a certeza, que a melhor forma de combater a direita capitalista, amiga do grande capital, é uma união das forças patrióticas de esquerda…
J: Mas… há dias o Sr. criticou ferozmente o PS por ter injectado mais 1200 milhões no Novo Banco.
JM: A dialéctica por vezes é enigmática, somos prisioneiros de forças malévolas…. apre!
J: E os apoios concedidos ao Novo Banco pelo governo socialista??!!
JS: Devemos manter a unidade democrática, custe o que custar. Caso contrário, o Pedro Passos Coelho, aquele diabinho insonso, poderá regressar à ribalta…
J: Mas???? O que pensa o Sr. acerca das PPP’s da saúde que o governo PS não erradicou, da abdicação da exigência da renegociação da dívida, do Novo Banco… os Srs. já não falam da saída de Portugal do Euro, esqueceram-se da NATO… o que é que vos aconteceu??
JS: A alienação capitalista, a conspiração dos senhores do capital, só juntos, bem juntinhos, de preferência de mãos dadas, conseguiremos combater os inimigos do povo (suspiro).
J: O PCP apoiará mais uma vez o PS, se tal for necessário?
JS: Sim, em nome dos trabalhadores portugueses, em nome da justiça e da coerência!
J: O PCP exigirá um ministério?
JS: Sim, exigiremos que se crie um novo ministério, o Ministério da Justiça Universal, que terá a responsabilidade de supervisionar os restantes ministérios.
J: Todos os restantes ministérios? Será um super-ministério?
JS: Sim, nós não brincamos. Sabemos criar burocracias como ninguém. Aprendemos com a camarada Estaline. Quantos mais funcionários públicos filiados nos nossos sindicatos, melhor! Chama-se a isto criar dependências umbilicais, garantir o futuro do PCP na era da globalização desenfreada. É uma questão de branding, está a ver?
J: Como propõe pagar por este novo ministério?
JS: O grande capital….
J: Acha que este projecto é viável?
JS: É claro que sim, desde que não seja o PCP a pagar….
J: É evidente que isto implicaria uma subida dos impostos para todos os Portugueses…
JS: Não. Nós só aumentaríamos os impostos do grande capital!
J: Mas, se taxar apenas o grande capital jamais obterá fundos suficientes para garantir a sustentabilidade do seu super ministério! Nós já fizemos as contas. Os fundos resultantes dos  impostos que propõe não bastariam para garantir a sustentabilidade do ministério que pretende criar.
JS: Minha Senhora, não insista! Taxaremos apenas o grande capital! Não se preocupe com trivialidades burguesas. As nossas contas são outras.  
J: E se o grande capital emigra para a Holanda, fecha fábricas e negócios, aumentando o desemprego??
JS: Nós estaremos sempre na primeira linha a lutar pelos direitos dos desempregados, minha Senhora.
J: Não seria infinitamente melhor lutar pelos direitos dos empregados?
JS: Faz sempre sentido lutar contra o grande capital.
J: E os empregos?
JS: Como?
J: E os empregos dos trabalhadores?
JS:  Os empregos dos trabalhadores foram destruídos pelo grande capital! Já tem idade para saber isto, ora essa!
J: Mas… .regressaremos a este assunto. Catarina Martins, o que fará o BE para promover o crescimento económico do país?
CM: Investiremos na educação, na pesquisa…
J: Sim, compreendo, a educação é um excelente investimento, mas só produz resultados a longo prazo. O que fará o BE a curto prazo para ajudar a combater o desemprego.
CM: Propomos aulas de yoga para os desempregados. Ajudar-lhes-á a combater a depressão.
J: Como?
CM: Estava a brincar. Propomos aulas de tai chi para os desempregados.
J:Como?
CM: Estava a brincar. Propomos aulas de filosofia feminista para os desempregados.
J: Como?
CM: Você é machista?
J:Como?
CM: Porque se opõe a aulas de filosofia feminista? É machista?
J:  Não, não sou.  Explique-me: como poderá o feminismo ajudar as/os desempregadas/os?
CM: Muito!
J:Como?
CM: Você é uma serva das nefastas estruturas patriarcais, claramente!
J: Eu?!
CM: Sim!
J: Repito a pergunta: o que fará o BE para combater o desemprego e promover o crescimento económico?
CM: Terá de falar com a Mariana acerca deste assunto. Ela é que trata destas coisas.

Para a semana, uma conversa imaginária da jornalista do jornal Transparência com Assunção Cristas e Rui Rio. A última conversa será com António Costa, actual Primeiro-Ministro de Portugal.

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Categorias: Opinião

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